ASPECTOS DO APOIO CONTIDO AMERICANO À KIEV NA GUERRA DA UCRÂNIA
(5 min de leitura)
INTRODUÇÃO
Forças de Kiev anunciaram, em 15
de agosto, controle total da cidade de Kursk na Rússia, estabelecendo,
inclusive, uma “administração militar” ucraniana na região, para que seja “mantida
a lei”, bem como “atendidas as necessidades da população local”, conforme informações
prestadas pelo comandante ucraniano, Oleksandr Syrsky. Essa proeza operacional
ucraniana surpreendeu a todos. Com efeito, até Washington alegou
desconhecimento prévio dos planos de Kiev para capturar território russo. Uma estratégia
ousada e perigosa – vale dizer.
Já no dia 19 de agosto, o
Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reiterou seu pedido às lideranças
ocidentais no sentido de autorizar a utilização de armas de precisão de longo
alcance, como sistema de mísseis ATACMS (norte-americano) e Storm Shadow
(franco-britânico), para atingir alvos militares mais no interior da Rússia.
Essa medida seria crucial para
que os ucranianos conseguissem destruir bases aéreas russas instaladas no
entorno da Ucrânia, as quais, atualmente, encontram-se fora do raio de ação de
suas armas convencionais.
Ainda assim, Washington parece
não estar convencida de que autorizar, declaradamente, Kiev a atacar alvos, profundamente,
em território russo seja a abordagem mais adequada no momento. Aparentemente,
evitar a escalada das tensões é a maior prioridade.
Além disso, prolongar o conflito, sem maiores danos colaterais, contribui, convenientemente, para o colapso econômico da Rússia, a médio e longo prazo. Afinal, essa nação possui, atualmente, o modesto 11º maior PIB do mundo (US$1.86 trilhão), ora inferior até mesmo ao do Brasil (9º do mundo, com US$ 2,13 trilhões). Condição essa que, a rigor, é incompatível com a manutenção dos custos da segunda maior força armada do planeta, tanto menos em estado de guerra, já levando a efeito a militarização de sua economia.
Não bastasse isso, a hesitação
norte-americana, em contribuir mais e decisivamente para a vitória ucraniana,
encontra razões, outrossim, mais sutis e complexas, as quais merecem uma
análise mais cuidadosa. Conforme veremos a seguir.
A RETÓRICA DAS “LINHAS
VERMELHAS” DE PUTIN
O Presidente russo, Vladimir
Putin, já estabeleceu, pelo menos uma dezena de vezes, as chamadas “linhas
vermelhas” para impor limites no auxílio direto à Ucrânia por países signatários
da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A retórica, quase sempre, consiste
no uso de armas nucleares, ao argumento de que interferências externas no
conflito representariam ameaça direta à integridade do território russo.
Essas “linhas” têm sido ignoradas
sucessivamente, com países da OTAN cada vez mais prestando auxílios
bilionários, militar e financeiro, à Ucrânia. Além disso, líderes europeus, como
o Presidente francês, Emmanuel Macron, já mencionaram diversas vezes
considerarem a hipótese de enviar soldados para atuar diretamente em favor da
Ucrânia na guerra.
Todas essas interferências ocidentais no conflito podem, sob a ótica da Constituição russa, autorizar, em tese, o Presidente russo a utilizar armas nucleares contra os ucranianos. Senão, vejamos.
POLÍTICA PARA EMPREGO DE ARMAS
NUCLEARES RUSSAS
A Rússia possui 5.977 ogivas
nucleares – o maior arsenal do planeta. Com efeito, é ligeiramente superior ao acervo
nuclear inteiro da OTAN, o qual totaliza 5.943 ogivas, composto por 5.428 dos
EUA, 290 da França e 225 do Reino Unido. Nos termos da Constituição russa, sua
doutrina para emprego de armas nucleares consiste em apenas quatro hipóteses: 1)
Resposta a um Ataque Nuclear; 2) Resposta à Ameaça Existencial,
isto é, caso a existência do Estado russo esteja em risco, ainda que sob ataque
de armas convencionais; 3) Resposta a Ataque a Infraestruturas
Críticas, ou seja, um ataque que comprometa a capacidade de resposta
nuclear russa; e 4) Agressão com Armas de Destruição em Massa (químicas,
biológicas ou nucleares).
Dito isso, percebe-se, pois, que,
à luz da Lei Maior russa, Putin já estaria autorizado a utilizar bombas nucleares
contra a Ucrânia, em razão da integridade territorial russa violada na cidade
de Kursk, ora dominada pelas forças de Kiev. Esse é um fator complicador para o
líder russo, visto que sua imagem já experimenta considerável desgaste diante da
controversa empreitada belicosa na Guerra da Ucrânia, como veremos a seguir.
EROSÃO DA LIDERANÇA RUSSA
Essa conjuntura de blefes
retóricos tem minado a imagem outrora impiedosa do líder russo no teatro
internacional. O que pode ser positivo, no sentido de compeli-lo a buscar, mais
cedo, um acordo de cessar-fogo com os ucranianos. Mas, por outro lado, também o
torna mais suscetível à influência de lideranças ultrarradicais russas, que
querem pôr termo ao conflito de forma devastadora e exemplar, com uso de
artefatos nucleares.
Essa corrente mais radical parte
do pressuposto de que, caso a Ucrânia fosse atacada com armas nucleares táticas
russas, nenhuma outra potência nuclear arriscaria retaliar a Rússia com igual
poder de destruição. Já que isso poderia desencadear a terceira guerra mundial.
E, quanto mais acuado se encontrar Putin, mais sedutor lhe parecerá adotar
opções peremptórias dessa natureza. Isso é muito perigoso.
A reiterada hesitação do
Presidente russo em fazer cumprir suas próprias ameaças, pode ser interpretada como
fraqueza aos olhos desses radicais, o que, por si só, traduz um risco enorme de
Putin ter sua liderança contestada, internamente, no seu alto escalão. Todas
essas variáveis compõem a delicada equação que lideranças ocidentais têm
sopesado, para assumir um risco calculado em prestar ajuda à Kiev.
DILEMA DO APOIO
NORTE-AMERICANO À KIEV
Washington tem ponderado,
cuidadosamente, seu apoio à Ucrânia para evitar levar Putin ao limite de ter que
provar não estar sempre blefando. Isso seria, certamente, desastroso! Além
disso, há sempre em mente o cálculo de que Putin pode ser um rival perigoso,
mas, pelo menos, é um líder de histórico amplamente conhecido e estudado, o que
o torna, outrossim, previsível.
Em contrapartida, considerada a
hipótese de uma eventual insurreição russa, que ensejasse a ascensão de uma
nova liderança ao comando do Kremlin, o mundo teria que lidar com um quase
completo desconhecido no controle do maior arsenal nuclear do planeta. Isso sim
seria um risco imponderável e, portanto, quiçá mais preocupante do que o cenário
anteriormente considerado.
CONCLUSÃO
As lideranças ocidentais adotam, por
ora, uma abordagem puramente pragmática no que toca ao seu apoio financeiro e
militar à Ucrânia.
Se, por um lado, é preciso conter
o expansionismo russo, por outro, é fundamental evitar algo muito pior, como a eventual
deposição de Putin, fazendo ascender um líder desconhecido e imprevisível, no
comando do maior acervo nuclear do planeta.
De igual monta, não se pode
encurralar o líder russo, deixando-o sem opções, a não ser dar sua “tacada
derradeira”, tornando a Rússia a segunda nação da história a utilizar armas
nucleares contra um inimigo.
Para Washington, trata-se, portanto, de um equilíbrio delicado, que deve ser mantido a todo custo. Ainda que, para tanto, seja preciso “ganhar” essa guerra aos poucos, colapsando a economia russa de dentro para fora. Uma estratégia que, infelizmente, tem custado caro demais para o povo ucraniano.

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