ASPECTOS DO APOIO CONTIDO AMERICANO À KIEV NA GUERRA DA UCRÂNIA

 

 

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INTRODUÇÃO

 

Forças de Kiev anunciaram, em 15 de agosto, controle total da cidade de Kursk na Rússia, estabelecendo, inclusive, uma “administração militar” ucraniana na região, para que seja “mantida a lei”, bem como “atendidas as necessidades da população local”, conforme informações prestadas pelo comandante ucraniano, Oleksandr Syrsky. Essa proeza operacional ucraniana surpreendeu a todos. Com efeito, até Washington alegou desconhecimento prévio dos planos de Kiev para capturar território russo. Uma estratégia ousada e perigosa – vale dizer.


É a primeira vez que a Rússia é invadida desde a Segunda Guerra Mundial – naquela ocasião, ocorreu a chamada “Operação Barbarossa”, em 22 de junho de 1941, quando a URSS foi invadida pelas forças do “Eixo”, compostas por Alemanha, Japão e Itália. É, outrossim, a primeira vez que uma potência nuclear teve seu território invadido. Ou seja, trata-se de uma operação militar sem precedentes na História! 


Já no dia 19 de agosto, o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reiterou seu pedido às lideranças ocidentais no sentido de autorizar a utilização de armas de precisão de longo alcance, como sistema de mísseis ATACMS (norte-americano) e Storm Shadow (franco-britânico), para atingir alvos militares mais no interior da Rússia.

 

Essa medida seria crucial para que os ucranianos conseguissem destruir bases aéreas russas instaladas no entorno da Ucrânia, as quais, atualmente, encontram-se fora do raio de ação de suas armas convencionais.

 

Ainda assim, Washington parece não estar convencida de que autorizar, declaradamente, Kiev a atacar alvos, profundamente, em território russo seja a abordagem mais adequada no momento. Aparentemente, evitar a escalada das tensões é a maior prioridade.

 

Além disso, prolongar o conflito, sem maiores danos colaterais, contribui, convenientemente, para o colapso econômico da Rússia, a médio e longo prazo. Afinal, essa nação possui, atualmente, o modesto 11º maior PIB do mundo (US$1.86 trilhão), ora inferior até mesmo ao do Brasil (9º do mundo, com US$ 2,13 trilhões). Condição essa que, a rigor, é incompatível com a manutenção dos custos da segunda maior força armada do planeta, tanto menos em estado de guerra, já levando a efeito a militarização de sua economia.

 

Não bastasse isso, a hesitação norte-americana, em contribuir mais e decisivamente para a vitória ucraniana, encontra razões, outrossim, mais sutis e complexas, as quais merecem uma análise mais cuidadosa. Conforme veremos a seguir.

 

A RETÓRICA DAS “LINHAS VERMELHAS” DE PUTIN

 

O Presidente russo, Vladimir Putin, já estabeleceu, pelo menos uma dezena de vezes, as chamadas “linhas vermelhas” para impor limites no auxílio direto à Ucrânia por países signatários da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). A retórica, quase sempre, consiste no uso de armas nucleares, ao argumento de que interferências externas no conflito representariam ameaça direta à integridade do território russo.

 

Essas “linhas” têm sido ignoradas sucessivamente, com países da OTAN cada vez mais prestando auxílios bilionários, militar e financeiro, à Ucrânia. Além disso, líderes europeus, como o Presidente francês, Emmanuel Macron, já mencionaram diversas vezes considerarem a hipótese de enviar soldados para atuar diretamente em favor da Ucrânia na guerra.

 

Todas essas interferências ocidentais no conflito podem, sob a ótica da Constituição russa, autorizar, em tese, o Presidente russo a utilizar armas nucleares contra os ucranianos. Senão, vejamos.


POLÍTICA PARA EMPREGO DE ARMAS NUCLEARES RUSSAS

 

A Rússia possui 5.977 ogivas nucleares – o maior arsenal do planeta. Com efeito, é ligeiramente superior ao acervo nuclear inteiro da OTAN, o qual totaliza 5.943 ogivas, composto por 5.428 dos EUA, 290 da França e 225 do Reino Unido. Nos termos da Constituição russa, sua doutrina para emprego de armas nucleares consiste em apenas quatro hipóteses: 1) Resposta a um Ataque Nuclear; 2) Resposta à Ameaça Existencial, isto é, caso a existência do Estado russo esteja em risco, ainda que sob ataque de armas convencionais; 3) Resposta a Ataque a Infraestruturas Críticas, ou seja, um ataque que comprometa a capacidade de resposta nuclear russa; e 4) Agressão com Armas de Destruição em Massa (químicas, biológicas ou nucleares).

 

Dito isso, percebe-se, pois, que, à luz da Lei Maior russa, Putin já estaria autorizado a utilizar bombas nucleares contra a Ucrânia, em razão da integridade territorial russa violada na cidade de Kursk, ora dominada pelas forças de Kiev. Esse é um fator complicador para o líder russo, visto que sua imagem já experimenta considerável desgaste diante da controversa empreitada belicosa na Guerra da Ucrânia, como veremos a seguir.

 

EROSÃO DA LIDERANÇA RUSSA

 

Essa conjuntura de blefes retóricos tem minado a imagem outrora impiedosa do líder russo no teatro internacional. O que pode ser positivo, no sentido de compeli-lo a buscar, mais cedo, um acordo de cessar-fogo com os ucranianos. Mas, por outro lado, também o torna mais suscetível à influência de lideranças ultrarradicais russas, que querem pôr termo ao conflito de forma devastadora e exemplar, com uso de artefatos nucleares.

 

Essa corrente mais radical parte do pressuposto de que, caso a Ucrânia fosse atacada com armas nucleares táticas russas, nenhuma outra potência nuclear arriscaria retaliar a Rússia com igual poder de destruição. Já que isso poderia desencadear a terceira guerra mundial. E, quanto mais acuado se encontrar Putin, mais sedutor lhe parecerá adotar opções peremptórias dessa natureza. Isso é muito perigoso.

 

A reiterada hesitação do Presidente russo em fazer cumprir suas próprias ameaças, pode ser interpretada como fraqueza aos olhos desses radicais, o que, por si só, traduz um risco enorme de Putin ter sua liderança contestada, internamente, no seu alto escalão. Todas essas variáveis compõem a delicada equação que lideranças ocidentais têm sopesado, para assumir um risco calculado em prestar ajuda à Kiev.

 

DILEMA DO APOIO NORTE-AMERICANO À KIEV

 

Washington tem ponderado, cuidadosamente, seu apoio à Ucrânia para evitar levar Putin ao limite de ter que provar não estar sempre blefando. Isso seria, certamente, desastroso! Além disso, há sempre em mente o cálculo de que Putin pode ser um rival perigoso, mas, pelo menos, é um líder de histórico amplamente conhecido e estudado, o que o torna, outrossim, previsível.

 

Em contrapartida, considerada a hipótese de uma eventual insurreição russa, que ensejasse a ascensão de uma nova liderança ao comando do Kremlin, o mundo teria que lidar com um quase completo desconhecido no controle do maior arsenal nuclear do planeta. Isso sim seria um risco imponderável e, portanto, quiçá mais preocupante do que o cenário anteriormente considerado.

 

CONCLUSÃO

 

As lideranças ocidentais adotam, por ora, uma abordagem puramente pragmática no que toca ao seu apoio financeiro e militar à Ucrânia.

 

Se, por um lado, é preciso conter o expansionismo russo, por outro, é fundamental evitar algo muito pior, como a eventual deposição de Putin, fazendo ascender um líder desconhecido e imprevisível, no comando do maior acervo nuclear do planeta.

 

De igual monta, não se pode encurralar o líder russo, deixando-o sem opções, a não ser dar sua “tacada derradeira”, tornando a Rússia a segunda nação da história a utilizar armas nucleares contra um inimigo.

 

Para Washington, trata-se, portanto, de um equilíbrio delicado, que deve ser mantido a todo custo. Ainda que, para tanto, seja preciso “ganhar” essa guerra aos poucos, colapsando a economia russa de dentro para fora. Uma estratégia que, infelizmente, tem custado caro demais para o povo ucraniano.

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