DE ORESHNIK A DONALD TRUMP: O PONTO DE INFLEXÃO NA GUERRA DA UCRÂNIA

 


(25 min de leitura)

INTRODUÇÃO

 

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, sugeriu um “duelo de mísseis” com o Ocidente, durante seu discurso na tradicional coletiva de imprensa anual em Moscou, realizada na última quinta-feira, 19 de dezembro de 2024.

 

“Não há como derrubar esses mísseis (Oreshnik). Se especialistas do Ocidente pensam que isso é possível, vamos propor a eles e aos Estados Unidos, que pagam por suas análises, um experimento tecnológico, um duelo de alta tecnologia do século XXI. Deixe que eles escolham um alvo, vamos dizer em Kiev, para que eles concentrem toda a defesa aérea e forças de mísseis lá, e nós vamos atacar com o míssil Oreshnik e vamos ver o que acontece”, disse Putin.

 

Essa declaração claramente traduz a elevação no seu tom retórico dissuasório perante lideranças ocidentais. Uma escalada presumivelmente calculada, em resposta aos últimos acontecimentos que intensificaram o conflito em solo ucraniano.

 

A Guerra da Ucrânia completou 2 anos e 10 meses dia 24 de dezembro. No entanto, foi somente em 17 de dezembro de 2024, durante a 19ª reunião de cúpula do G20, na Cidade do Rio de Janeiro, que o Presidente norte-americano Joe Biden anunciou publicamente que os Estados Unidos da América (EUA) passaram a autorizar o uso de mísseis ATACMS (Army Tactical Missile Systems), com alcance de até 300 km, precisão de 10 a 30 metros e custo unitário entre um milhão a um milhão e meio de dólares, para a Ucrânia atingir alvos militares no interior do território russo.

 


A referida decisão foi logo acompanhada por França e Reino Unido, que também permitiram a utilização ucraniana de mísseis de cruzeiro Storm Shadow / SCALP-EG, com alcance aproximado de 550 km, precisão de 5 a 10 metros e custo unitário de um milhão de dólares, contra ativos militares baseados no interior da Rússia.

 

Trata-se de uma quebra de paradigma significativa na abordagem ocidental, contrastando a costumeira negativa dessas lideranças ante incontáveis súplicas do Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, no sentido de utilizar esses mísseis contra alvos no interior do território russo.

 

Mas qual o impacto concreto dessa decisão? A autorização do uso desses mísseis, decerto, muda sensivelmente a dinâmica do conflito, complicando a logística russa, que agora precisa afastar seus principais ativos militares do alcance, além de estender as linhas de abastecimento para as tropas, que pretendem avançar em solo ucraniano, para consolidar o domínio integral dos territórios de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson (mapa abaixo).  


E qual seria a razão para o Ocidente cruzar mais uma “linha vermelha” estabelecida por Putin, com essa nova escalada sem precedentes, logo agora, em um conflito que se aproxima dos três anos de duração e, provavelmente, já matou quase um milhão de pessoas? Eis que a resposta para essa pergunta não poderia ser outra, senão: Donald Trump!

 

TRANSIÇÃO DE PODER NORTE-AMERICANA

 

Após a vitória acachapante na eleição presidencial norte-americana, em 5 de novembro de 2024, Donald Trump assegurou o retorno à Casa Branca, para seu segundo e último mandato à frente dos EUA, tornando-se seu 47º Presidente, o segundo da história a ser eleito para um segundo mandato não-consecutivo desde Grover Cleveland em 1892. É também a primeira vitória de um republicano no voto popular desde 2004.

 


Desta vez, Trump não só venceu em número de delegados e votos populares, mas também contará com a maioria de deputados, de senadores, de governadores e até de ministros da Suprema Corte, o que lhe confere, na prática, poderes típicos de uma espécie de “super mandato”, com uma ampla maioria republicana disposta a apoiar suas políticas ultrarradicais em vários setores.

 

No que concerne aos planos para sua política externa, é cediço que Trump pretende acabar com a Guerra da Ucrânia em 24 horas. Suas manifestações polêmicas já causaram mudanças geopolíticas radicais na conjuntura internacional, sobretudo em países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

 

O Presidente republicano eleito já ameaçou retirar os EUA da OTAN, ao argumento de que os europeus deveriam pagar por sua própria defesa e não permanecerem dependentes dos norte-americanos para se defenderem da Rússia.  Nessa conformidade, ameaçou, inclusive, vetar ajuda norte-americana a países da OTAN que não gastem o mínimo de 2% do seu PIB no setor de defesa e porventura sejam atacados pela Rússia. Com efeito, disse até mesmo que incentivaria Putin a atacar esses países!

 

Apenas 11 dos 32 países-membros da OTAN atingem a meta de gastos com defesa. Segundo levantamento realizado em meados de 2023, os três países com as maiores porcentagens também foram os únicos que superaram 3%: Polônia (3,90%), EUA (3,49%) e Grécia (3,01%). Os outros países que atingiram o limite mínimo de 2% foram Estônia, Finlândia, Hungria, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Reino Unido (ver ranking abaixo).

 


Ainda que possa se tratar de mera retórica, as ameaças de Trump já fizeram países-membros da OTAN reformularem seus orçamentos apressadamente, com vistas ao   cumprimento da meta de gasto mínimo com defesa, além de lançarem campanhas para incentivar o alistamento de jovens para o serviço militar. Paralelo a isso, os europeus renovaram pacotes bilionários de ajuda militar e humanitária à Ucrânia, temendo que eventual vitória russa encoraje Putin a lançar ataques a outros países da Europa.

 

Há patente distinção da abordagem de Trump se comparada à de Biden no tocante à Guerra da Ucrânia. Enquanto Biden elegeu a Rússia como alvo prioritário norte-americano, Trump aparenta guiar-se por uma postura mais apaziguadora com Putin, voltando sua retórica agressiva para a guerra comercial que pretende travar com a China.

 

IMPORTÂNCIA DA UCRÂNIA NA GUERRA COMERCIAL

 

Por falar em guerra comercial entre EUA e China, sabe-se, por exemplo, que os carros elétricos chineses dominam, já em 2024, aproximadamente 57% do mercado global automotivo, com destaque para as marcas chinesas BYD, Geely e SGMW.

 

Em razão disso, Trump promete sobretaxar, especialmente, os carros chineses, alegando que a política de subsídios da China para o setor automotivo permite que os carros chineses ingressem no mercado americano com valores abaixo da média, caracterizando concorrência desleal. Vale lembrar que, em setembro de 2024, os EUA já aplicaram uma tarifa de 100% sobre veículos elétricos importados da China e Trump quer acrescentar mais 10%.

 

E o qual seria a relação dessa guerra comercial com o conflito na Ucrânia? A resposta para essa pergunta naturalmente é: energia!  Ora, a disputa hegemônica global entre EUA e China, obviamente, já começou e está sendo travada em diversas dimensões, embora seja o aspecto político-econômico o mais perceptível no momento. Ambas as nações precisam garantir acesso a recursos energéticos em abundância, para abastecer suas indústrias em franco crescimento.

 

A indústria de automóveis eletrificados é um importante exemplo a ser considerado, em um mundo que se organiza, ainda que precariamente, para implementar a inevitável transição da matriz energética à base de combustíveis fósseis para a energia limpa. O petróleo tem seus dias contados, não só porque é um recurso finito, mas também porque seu consumo, desenfreado na era moderna, representa o principal agente responsável pelo aumento na emissão de gases de efeito estufa e o consequente agravamento do aquecimento global.  

 

A eletrificação, não só da indústria automotiva, é mais do que mera modernização tecnológica, é, provavelmente, a única solução para combater o aquecimento global no longo prazo. Essa revolução não vem desacompanhada de enormes desafios. Afinal, é preciso aumentar a produção de baterias elétricas, para abastecer sua assombrosa demanda crescente, bem como investir no seu processo de modernização, para lograr maior potência, confiabilidade e durabilidade.

 

Eis que ressurge a questão da, já conhecida, disputa das superpotências pelos recursos naturais energéticos escassos. Estamos falando, notadamente, de lítio, cobalto, níquel, manganês, grafite, alumínio, cobre etc. Em geral, insumos indispensáveis para produção em massa de baterias elétricas. Na era moderna eletrificada, esse sim é o novo petróleo! Exatamente por isso a Ucrânia é tão importante nesse mundo novo.

 

O solo predominante na Ucrânia é o Tchernozem, conhecido como "celeiro da Europa". É considerado um dos solos mais férteis do mundo, devido à sua alta concentração de matéria orgânica e nutrientes essenciais, como nitrogênio, fósforo e potássio. Além da sua capacidade de produzir alimentos suficientes para alimentar um bilhão de pessoas, é riquíssimo em recursos minerais e metálicos valiosos, como lítio, níquel, cobalto, manganês e titânio.

 

Especialistas calculam que a Ucrânia tem milhões de toneladas de minério de lítio, com 12 a 14 milhões só no depósito de Shevchenkivske. Segundo Roman Opimakh, Diretor Geral do Serviço Geológico do Estado da Ucrânia, "A Ucrânia tem os maiores depósitos de lítio da Europa!". Não bastasse isso, a Ucrânia possui consideráveis reservas comprovadas de petróleo e gás, com cerca de um trilhão de metros cúbicos de gás natural ainda inexplorado!

 

Sendo assim, percebe-se que a dívida ucraniana multibilionária com o Ocidente, para manter seu esforço de guerra, obviamente, será paga com décadas de fornecimento de precisos recursos minerais, metálicos e energéticos ucranianos para abastecer as indústrias ocidentais, durante a guerra comercial travada contra a China e seus aliados. Afinal, no mundo da geopolítica, não há propriamente mocinhos e bandidos, tampouco as alianças são pactuadas por mero acaso.

 

PLANOS DE DONALD TRUMP PARA EUA E RÚSSIA

 

Trump parece entender que a América, já combalida economicamente pela maior dívida pública do planeta (superior aos 36 trilhões de dólares, mais que duas vezes a dívida pública do 2º colocado, a China, ver mapa abaixo), teria extrema dificuldade de rivalizar com a “Aliança Sem Limites” sino-russa no longo prazo. Sendo assim, a negociação da paz na Guerra da Ucrânia, em condições que agradem a Putin, pode servir de ponto de partida para uma reaproximação entre Washington e Moscou.


 

Essa estratégia, caso bem-sucedida, poderia mitigar a progressiva dependência econômica russa dos chineses, que só fez aumentar após a implementação dos pacotes de sanções ocidentais sobre produtos e ativos financeiros russos.

 

Para manter sua máquina de guerra a pleno vapor, Putin não encontrou saída, senão aceitar descontos de até 50% para que Pequim e Nova Delhi sigam comprando a maior parte do petróleo e gás natural russo. Isto é, a mesma guerra que drena recursos russos, norte-americanos e europeus, certamente está sendo muito lucrativa para os chineses e indianos até agora.

 

Em apertada síntese, Trump não pode se dar ao luxo de torcer para que a aliança por conveniência Moscou-Pequim atinja espontaneamente seu limite de validade. Até porque, a finalidade precípua dessa aliança é destronar a hegemonia norte-americana. Ou seja, a América como um “inimigo comum” dá significado, propósito e perenidade à “Aliança Sem Limites”, relegando diferenças históricas marcantes entre russos e chineses a segundo plano, a exemplo da disputa territorial na região da Manchúria.

 

A reconciliação Washington-Moscou e um possível consequente desentranhamento dos laços Moscou-Pequim parecem constituir um cenário geopolítico mais otimista, tendente a refrear a rota de colisão entre EUA e China no futuro próximo, adiando o possível ponto de ruptura na disputa hegemônica entre as duas superpotências. 

 

Esses planos de reconciliação parecem agradar a ambos os Governos Trump e Putin, razão pela qual devem ser considerados o cenário mais provável para 2025.

 

Não por acaso, os planos de JD Vance, Vice-Presidente eleito dos EUA, para negociação da paz, são no sentido de que a Ucrânia ceda territórios à Rússia; seja criada uma zona desmilitarizada, densamente fortificada e custeada pelos europeus, na linha de demarcação atual entre os países; e seja pactuado um período mínimo de 20 anos para que a Ucrânia possa ser aceita na OTAN.

 

Essa proposta deflagrou fortes protestos, principalmente na comunidade europeia, considerando que não admitir a Ucrânia na aliança, em caso de eventual celebração de paz com a Rússia, seria apenas dar mais tempo para Putin se rearmar, retomando sua empreitada beligerante para anexar mais território ucraniano no futuro próximo.

 

Ainda assim, Trump tornou assente que a negociação de paz entre Ucrânia e Rússia é necessária e impositiva, de modo que se não for celebrado o acordo, desencadear-se-á imediatamente a intensificação da ajuda militar norte-americana à Ucrânia, caso a Rússia não aceite o acordo, ou a total interrupção do apoio dos EUA, ante a hipótese de a Ucrânia não aceitar a paz.

 


Diante das premissas apresentadas, depreende-se que, de fato, Trump tem condições de fazer cessar as hostilidades, pavimentando o terreno para a celebração de um acordo. Resta saber quais as chances dessa “paz impositiva” durar perenemente, sobretudo sem a garantia de a Ucrânia ingressar na OTAN em até 20 anos.

 

Independentemente das chances do cessar-fogo mediado por Trump ser ou não uma solução durável, o fato é que a iminência de sua posse, em janeiro de 2025, só fez intensificar os combates na Guerra da Ucrânia – parecendo uma autêntica corrida por mais território antes do apagar das luzes.

 

MUDANÇA ESTRATÉGICA DO GOVERNO BIDEN

 

Esse prognóstico para o desfecho da Guerra da Ucrânia, obviamente, desagrada, e muito, ao Governo Biden. Até por isso, o democrata mudou radicalmente sua abordagem quanto ao apoio norte-americano prestado à Kiev.



A Administração Biden prestou, desde o início da guerra, auxílio contido à Kiev deliberadamente, por dois principais motivos, um ora descortinado, já o outro nem tanto.

 

Primeiramente, havia o explícito temor de que a multibilionária ajuda militar ocidental pudesse escalar demasiadamente o conflito, pressionando Moscou ao ponto de lançar mão de seu último recurso para ganhar a guerra: as armas nucleares.

 

Ademais, considera-se que armar a Ucrânia não mais do que o suficiente para causar pesadas baixas às forças russas, traduzia um propósito velado de Washington em prolongar uma guerra de atrito sem grandes surpresas, onerando sobremaneira o colossal esforço de guerra de Putin, o que tenderia ao esperado colapso econômico do Estado russo no longo prazo.

 

(Por ocasião da análise acerca da comedida ajuda prestada por Washington à Kiev, sugere-se a leitura do artigo ASPECTOS DO APOIO CONTIDO AMERICANO À KIEV NA GUERRA DA UCRÂNIA.)

 

Agora tudo mudou. Os democratas perderam a corrida eleitoral e é certo o retorno de Trump à Casa Branca em 2025. Não bastasse isso, a Rússia provou ser mais resiliente do que o Ocidente esperava, adotando todas as medidas políticas, econômicas e sociais necessárias, para manter seu esforço de guerra e seguir avançando na anexação de território ucraniano. 

 

Nos instantes finais de seu mandato, Joe Biden pretende envidar todos os esforços no sentido de armar a Ucrânia, para melhorar as chances de Kiev recuperar território e, se possível, consolidar domínio de porção significativa da região russa de Kursk, que ainda abriga tropas ucranianas. Dessa forma, Zelensky teria mais chance de barganhar melhores condições em provável negociação com Putin, mediada por Donald Trump já em 2025.



Portanto, o retorno iminente de Trump e seus planos peculiares para acabar com a Guerra da Ucrânia são os principais motivos para o Governo Biden, França e Reino Unido ultrapassarem mais uma “linha vermelha” traçada por Putin, autorizando o uso de armas de longo alcance para atingir alvos no interior da Rússia.

 

Com essa autorização, em 19 de novembro de 2024, pela primeira vez, a Ucrânia lançou seis mísseis ATACMS norte-americanos em direção a Bryansk, região no sudoeste da Rússia, próximo à fronteira com a Ucrânia. Segundo o Ministério da Defesa russo, cinco ATACMS foram interceptados e o sexto, parcialmente destruído, com alguns destroços causando um incêndio em uma área militar.

 

Mas qual seria a possível consequência mais grave disso? Afinal, o Ocidente tem ignorado sistematicamente as ameaças de Putin, desde o início da guerra, e, nem por isso, Putin fez uso das temidas armas nucleares. Com efeito, a retórica dissuasória baseada em ameaças nucleares de Putin, aparentemente, não tinha surtido efeito algum, sendo, inclusive, banalizada com frequência pelo Ocidente.

 

ORESHNIK E O PONTO DE INFLEXÃO NO CONFLITO

 

O Ocidente parecia acreditar que o líder russo estivesse de mãos atadas, restrito ao uso de armas convencionais, não importando o quanto fosse desafiado. Afinal, se, por um lado, usar armas nucleares táticas na Ucrânia pudesse pôr termo ao conflito e sacramentar peremptoriamente sua vitória, sendo certo que nações nuclearizadas não retaliariam com contra-ataques igualmente destruidores, sob pena de desencadear a Terceira Guerra Mundial. Por outro lado, fazer uso desse recurso nuclear desproporcional abalaria, por certo, a parceria com os chineses, agravando, ainda mais, o isolamento russo no cenário internacional.

 

Pois bem, o ataque com armas ocidentais de longo alcance provou, verdadeiramente, que esta “linha vermelha” de Putin era real. Afinal, em 21 de novembro de 2024, apenas dois dias após lançado o ataque ucraniano inédito com mísseis ATACMS, o mundo testemunhou atônito a Rússia fazendo história, como a primeira nação a utilizar um míssil balístico hipersônico com capacidade nuclear em combate.

 

Esse marco eminentemente geopolítico, por si só, já serviu como ponto de inflexão no conflito ucraniano, na medida em que sinalizou para o Ocidente, em alto e bom som: Putin não está sempre blefando!

 

A título de curiosidade, ressalta-se que a Rússia e os EUA mantinham a proibição de colocar em serviço esse tipo de míssil, em virtude do Tratado Sobre Forças Nucleares de Alcance Intermediário, assinado em 1987, durante a Guerra Fria. No entanto, em 2019, o então presidente dos EUA, Donald Trump, retirou Washington do pacto, acusando Moscou de violá-lo, deflagrando uma nova corrida armamentista.

 

O dispositivo utilizado pela Rússia, em 21 de novembro, foi um Míssil Balístico de Alcance Intermediário, chamado Oreshnik (que significa “avelã” em russo), lançado de Astrakhan na Rússia, cerca de 1.000 km de distância do alvo atingido, a fábrica de mísseis Pivdenmash, em Dnipro, no centro-leste da Ucrânia. Segundo o Serviço Secreto Ucraniano (SBU), o ataque resultou em grandes explosões e destruição de infraestrutura. Os fragmentos do míssil foram encontrados e exibidos pelo SBU (foto abaixo), destacando a gravidade do impacto.



 

Segundo o Presidente russo, "Ainda não há contramedidas para tal míssil, nenhum sistema no mundo é capaz de interceptá-lo. E digo novamente que vamos seguir testando este mais novo sistema". Mas será que esse artefato é mesmo tudo isso que Putin afirma? Aparentemente, se não é exatamente isso, seria quase. Senão, vejamos.

 

O Oreshnik é propelido por combustível sólido, o que caracteriza seu elevado grau de prontidão para uso imediato, possui o alcance de até 5.500 km, precisão de 150 metros e a incrível velocidade máxima hipersônica Mach 10 (12.300 km/h; 7.610 mph; 3,40 km/s) – isto é, cerca de dez vezes a velocidade do som!

 


O míssil possui três estágios de lançamento, com a capacidade de realizar manobras evasivas durante sua trajetória, para evitar interceptações, além de ser equipado com seis ogivas do tipo MIRV (Múltiplos Veículos de Reentrada Independentemente Direcionáveis), cada uma delas contendo seis submunições – ou seja, cada Oreshnik possui 36 submunições no total, capazes de atingir alvos diferentes!

 

Durante a reentrada na atmosfera, o atrito aerodinâmico, em velocidade hipersônica, faz as ogivas MIRVs atingirem temperatura superior a 4.000 graus Celsius, dificultando ainda mais sua interceptação – isso é quase a temperatura da superfície do Sol, que é cerca de 5.600 graus Celsius!

 

Embora o modelo específico do míssil disparado contra a região ucraniana de Dnipro, em 21 de novembro, não possuísse carga explosiva alguma, o Oreshnik tem capacidade nuclear máxima de impressionantes 900 quilotons – o que equivale a cerca de 45 vezes o poder da bomba norte-americana “Little Boy”, lançada sobre a Cidade de Hiroshima em 1945!

 

O poder destrutivo do impacto cinético das suas ogivas MIRVs é tão grande que torna até mesmo dispensável a utilização de cargas explosivas. Estima-se, inclusive, que a eficiência de liberação de energia térmica de uma ogiva puramente cinética (sem explosivos) do Oreshnik, com a velocidade Mach 10 de aproximação ao alvo, é por volta de três vezes e meia maior do que a de ogivas não nucleares com a mesma massa contendo explosivos.

 

Trata-se, pois, de um dispositivo virtualmente imparável! Todavia, em teoria, o sistema de defesa norte-americano Terminal High Altitude Area Defense (THAAD, foto abaixo) é considerado uma das poucas defesas antimísseis que podem ter uma chance, embora pequena, de interceptar o Oreshnik, ou, pelo menos, algumas de suas submunições.

 


Especialistas ocidentais afirmam que esse dispositivo russo é baseado na plataforma do, já conhecido, Míssil Balístico Intercontinental RS-26 Rubezh (foto abaixo), com altíssimo custo de fabricação, por isso, de produção limitada – não se sabe ao certo os valores, no entanto, estima-se algo em torno de US$ 70 milhões por unidade do míssil RS-26 Rubezh. Nessa conformidade, a produção do Oreshnik deve ser também excessivamente custosa, o que torna improvável a utilização frequente dessa arma contra o território ucraniano no momento.

 


Ainda assim, em declaração recente, Putin disse que pretende implementar a produção em massa do Oreshnik e que a Rússia pode usá-lo novamente em breve, inclusive para atingir “centros de tomada de decisão” em Kiev, caso a Ucrânia continue atacando território russo com armas ocidentais de longo alcance.

 

Com essa retaliação sem precedentes, o chefe supremo do Kremlin adicionou camadas outrora inexploradas na escalada do conflito, provando, portanto, dispor de recursos alternativos às armas convencionais para dissuadir o Ocidente, sem necessidade de apelar para mísseis nucleares. Ou seja, lançar o Oreshnik, mais do que tudo, foi um evento geopolítico, visando a reafirmar o lugar da Rússia na ordem multipolar internacional.

 

Paralelo a isso, o Presidente anunciou que foram feitas alterações na doutrina nuclear da Rússia, que agora considerará ataques por países não nucleares, mas apoiados por potências nucleares, como uma agressão conjunta. Significa dizer que a Rússia se reserva ao direito de utilizar suas armas nucleares em resposta a ataques convencionais que envolvam apoio de nações nuclearizadas.

 

Dessa vez a ameaça russa alarmou nações europeias de verdade. E não é para menos! Não há mais o que se duvidar quanto a real possibilidade, tecnológica ou legal, de a Rússia conseguir atingir outros países da Europa. Afinal, tecnicamente, o Oreshnik tem capacidade para atingir Berlin em 12 minutos, Roma em 14 minutos, Bruxelas em 15 minutos, Paris em 16 minutos e Londres em 17 minutos (mapa abaixo). Ademais, legalmente, as circunstâncias do conflito ucraniano, à luz da nova doutrina nuclear russa, já autorizariam Putin a ordenar ataques nucleares contra países da Europa, por exemplo. Nunca se levou tão a sério uma “linha vermelha” como agora.



Não à toa, a procura por bunkers antibombas cresceu 90% em países da Europa, inclusive, com lista de espera para atender a pedidos de novos clientes. Países como Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca e até a Espanha têm distribuído uma espécie de manual de sobrevivência, para preparar a população civil para crises humanitárias deflagradas por uma eventual guerra. A Europa teme, de verdade, uma nova guerra mundial!

 

MILITARIZAÇÃO DA ECONOMIA RUSSA

 

Em que pese a chamada "Operação Militar Especial na Ucrânia" (terminologia oficial cunhada por Putin) tenha experimentado, inicialmente, diversos fracassos logísticos, dado o propósito claro e inatingido de tomar Kiev, substituir Zelensky por um governante pró-Rússia e evitar assim um combate prolongado e repleto de interferências ocidentais, há que se reconhecer a surpreendente capacidade adaptativa da abordagem russa diante das contingências desventurosas no conflito.

 

(Ao ensejo de aprofundar a leitura sobre questões operacionais e políticas que frustraram o sucesso da invasão russa, sugere-se a leitura do artigo DESGASTE GEOPOLÍTICO RUSSO NA GUERRA DA UCRÂNIA.)

 

A Ucrânia já recebeu ajuda militar, financeira e humanitária na ordem de 39 bilhões de euros de países da Europa e mais 75,1 bilhões de euros dos EUA. Mesmo assim, a Rússia não só detém a vantagem no combate, mas também segue avançando sobre território ucraniano, para consolidar a anexação dos territórios de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson.

 

Quando a ajuda financeira ocidental se mostrou um percalço significativo, tendente a prolongar indefinidamente o conflito, Putin não tardou a decidir pela conversão de sua indústria, militarizando sua economia. Uma estratégia ousada, que trouxe fôlego adicional para o esforço de guerra russo, contudo, considerada demasiadamente perigosa no longo prazo.

 


O “keynesianismo militar”, termo técnico para descrever o estímulo estatal à economia através de gastos militares, decerto, permite a rápida conversão de fábricas civis para a produção de itens militares. Essa estratégia intensifica a reposição de armas, munições, tanques, mísseis e outros equipamentos militares, além da mobilizar recursos financeiros e matérias-primas para apoiar a indústria de defesa.

 

Nessa toada, a Rússia aprovou aumento de 30% de gastos militares para 2025, cerca de 13,5 trilhões de rublos (US$ 145 bilhões). Os gastos combinados com defesa e segurança representarão cerca de 40% do orçamento total do governo russo em 2025.

 

Não por acaso, Andrius Kubilius, Comissário Europeu, durante uma entrevista para agência de notícias AFP, em novembro de 2023, afirmou categoricamente que “A Rússia produz mais armas e munições em três meses do que a Europa toda em um ano!”. A Comissão Europeia estima serem necessários 500 bilhões de euros em investimentos adicionais para defesa na próxima década, se a Europa quiser corrigir essa discrepância, preparando-se para a ameaça de uma Rússia cada vez mais armada.

 

Mas quais seriam os riscos dessa manobra de militarização da economia russa no longo prazo? O primeiro deles, e mais evidente, seria o desequilíbrio econômico, dada a dependência excessiva do setor de defesa como motor de crescimento, em prejuízo de outros setores básicos; outro seria a inflação, pois o aumento desenfreado de gastos militares, sem o aumento correspondente de bens e serviços, tende a gerar escassez de produtos básicos e o aumento compensatório dos preços; há também o aumento da dívida pública, para arcar com gastos militares cada vez maiores; finalmente, o aprofundamento da desigualdade social, considerando que a prioridade militarista desvia recursos que seriam normalmente empregados em setores como educação, saúde e infraestrutura básica.

 

Notadamente acerca da economia russa, desde o início da guerra na Ucrânia em fevereiro de 2022, o rublo russo caiu aproximadamente 30% em relação ao dólar, o que desencadeou a alta da taxa básica de juros para 21%, com vistas a conter a inflação. Já as receitas do petróleo russo caíram cerca de 20% só em 2024.

 

Ainda assim, os riscos dessa estratégia eminentemente militarista, como podemos perceber, são mormente atrelados ao longo prazo. No entanto, todos os principais atores envolvidos apostam na “cartada” definitiva de Trump para encerrar o conflito ucraniano já em janeiro de 2025. Dessarte, os riscos assumidos por Putin parecem ser bem-calculados e justificados, uma vez que a vitória na Guerra da Ucrânia é tratada como prioridade absoluta.

 

Outro fator que tem pesado para manter a Rússia em vantagem naquele teatro de operações, apesar dos desafios econômicos, é a recente ativação do pacto de defesa mútua, celebrado no âmbito da aliança militar entre Rússia e Coreia do Norte, ao argumento de que a violação do território russo na região de Kursk, invadido por tropas ucranianas desde 15 de agosto de 2024, justificaria a legítima intervenção das tropas de Kim Jong-um em sua defesa.

 

Trata-se de uma manobra providencial russa, a qual possibilitou intensificar, com ajuda dos soldados norte-coreanos, a contraofensiva para retomar o território russo invadido, sem que, para isso, fosse necessário remanejar tropas russas de elite, ora empregadas para consolidar prioritariamente as regiões ocupadas no leste da Ucrânia. Segundo o SBU ucraniano, já há cerca de 10 mil soldados norte-coreanos lutando a favor de Moscou na Guerra da Ucrânia.

 

Mas, afinal, a Rússia tem interesse em atacar novamente a Ucrânia ou outro país da Europa em breve? Acredita-se que não. Conforme já alhures explicado, as principais consequências danosas da estratégia de militarização da economia russa consolidam-se mormente no longo prazo. Dessarte, seria conveniente que Putin desmobilizasse a conversão militarista de sua indústria tão logo fosse celebrada a paz com a Ucrânia e consolidada a anexação formal das regiões ocupadas no leste ucraniano.

 

Todavia, caso não seja implementada em breve essa desmobilização militar, é possível e até provável a concretização de um cenário muito mais sombrio. Sabe-se que, no longo prazo, o sucesso do “keynesianismo militar” depende da continuidade dos conflitos, uma vez que o principal motor de crescimento econômico, nesse modelo, concerne justamente à produção em larga escala de munições, armas, blindados, aeronaves, mísseis etc.

 

Sendo assim, manter a indústria militarizada, sem manter, em paralelo, o esforço de guerra em alguma frente de batalha, contribui para o desaquecimento da economia e consectário aumento do desemprego. Ou seja, paradoxalmente, um Estado excessivamente militarizado depende do envolvimento em guerras para prosperar. Para esse segundo cenário hipotético, os temores europeus de uma guerra em larga escala se aproximando seriam certamente justificados.

 

CONCLUSÃO

 

O cessar-fogo na Guerra da Ucrânia é dado como certo com a volta de Donald Trump à Casa Branca em 2025. Não só porque estancar os gastos hiperbólicos com armamentos destinados à Ucrânia será uma prioridade de Washington, para controlar a gigantesca dívida pública norte-americana, mas também porque a celebração do acordo de paz será imposta ao Governo Zelensky e, provavelmente, em condições suficientemente favoráveis ao Governo Putin.

 

Não se sabe, contudo, se a “paz impositiva” será longeva o suficiente para que a Ucrânia consiga ser aceita na OTAN no futuro. Acredita-se que tudo dependerá do desdobramento no processo de disputa hegemônica entre EUA e China, a partir dos acontecimentos desencadeados pelas próximas tratativas reconciliatórias entre Washington e Moscou, com a inauguração do Governo Trump em 2025.

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