LOCKHEED SR-71 BLACKBIRD, A AERONAVE OPERACIONAL MAIS VELOZ DA HISTÓRIA
(20 min de leitura)
Na década de 1960, durante a
Guerra Fria, os Estados Unidos da América (EUA) utilizavam principalmente
aeronaves para realizar missões de espionagem e reconhecimento no território
soviético.
Muito embora empregar aviões-espiões
fosse mais arriscado, tratava-se de uma estratégia mais flexível, dado seu
menor tempo de resposta, se comparada à utilização de satélites, que operam em
órbitas fixas e não podiam ser reposicionados rapidamente. Além disso, câmeras
e sensores avançados dessas aeronaves podiam capturar imagens com alta
resolução e coletar dados de inteligência com maior qualidade do que os
satélites disponíveis na época.
Obviamente, o sucesso das missões
de espionagem dependia cada vez mais da capacidade furtiva desses aviões. Eis
que o desenvolvimento da tecnologia stealth dessas aeronaves militares alçava
seu estágio embrionário.
A priori, acreditava-se que aviões
com elevadíssimo teto operacional poderiam passar despercebidos aos radares
inimigos. Nessa perspectiva, foi concebido e amplamente empregado o Lockheed
U-2 (foto abaixo), conhecido como “Dragon Lady”, apto a voar à elevada altitude de 21.300
metros e a atingir a discreta velocidade máxima de 850 km/h aproximadamente.
No entanto, essa aeronave provou
não ser furtiva o suficiente e, ainda pior, pouco capaz de se evadir em
segurança, quando sob ataque de mísseis. Exemplo disso foi o famoso “Incidente
do U-2”, de 1º de maio de 1960, no qual o piloto americano, Francis Gary
Powers (foto abaixo), teve seu avião U-2A abatido, quando realizava uma missão secreta de
espionagem sobrevoando território soviético. O piloto sobreviveu, ejetando-se
da aeronave, mas foi capturado e sentenciado a 10 anos de prisão, dos quais
cumpriu 21 meses, sendo libertado pelos soviéticos durante uma troca de
prisioneiros em 1962.
Esse incidente diplomático piorou
sobremaneira as relações entre a União Soviética (URSS) e os EUA, dada a
impossibilidade de os americanos fazerem negações plausíveis sobre as acusações
de espionagem, diante do fato, incontestável, de seu piloto ter sido capturado
sobrevoando território soviético.
Todo esse embaraço serviu como
catalizador do programa mais misterioso e secreto de defesa dos EUA nos anos
1960, chamado “Projeto Negro”, que incluía o desenvolvimento de tecnologias
inovadoras e passou a focar no projeto de uma aeronave que “não pudesse ser
derrubada”.
Para tanto, a Skunk Works,
divisão de projetos secretos da atual Lockheed Martin, projetou e desenvolveu do
zero, em apenas 20 meses, o Lockheed A-12, para a Agência Central de
Inteligência dos Estados Unidos (CIA), no âmbito do Projeto Oxcart.
Essa aeronave, para um tripulante,
possuía a capacidade de voar à elevadíssima altitude, atingir velocidade inigualável
e com muito baixa seção transversal de radar. Foi considerada, inclusive, o
primeiro avião operacional com tecnologia stealth do mundo. Não por
acaso, sua principal pista de testes era justamente em Groom Lake, a ultrassecreta Área 51, localizada em Nevada.
Esse extraordinário aparelho deu origem a uma série de aviões, conhecidos como a “Família Blackbird”, composta pelo próprio A-12 e seus derivados: M-21, YF-12 e o renomado SR-71.
Foram produzidas 13 unidades do
A-12, de 1962 a 1964, sendo três delas destruídas em acidentes e nenhuma
abatida por inimigos. Realizou um total de 29 missões de reconhecimento pela
CIA, antes de ser retirado de serviço em 1968.
Já o YF-12, para dois tripulantes
(um piloto e um oficial de controle de fogo), foi concebido como um
interceptador de alta altitude para a Força Aérea dos EUA (USAF), todavia,
nunca entrou em serviço operacional. Dois modelos foram transferidos para
pesquisas da National Aeronautics and Space Administration (NASA), até serem aposentados
em 1979. Três unidades do YF-12 foram construídas no total, duas delas
destruídas em acidentes.
Finalmente, a variante SR-71, para
dois tripulantes (um piloto e um oficial de reconhecimento), tinha uma
estrutura um pouco mais longa que o A-12 e apresentava melhorias significativas
em aviônicos, capacidade de combustível e alcance, tornando-se, exatamente por
isso, a principal aeronave de reconhecimento estratégico – razão pela qual foi
o único modelo que realmente prosperou da Família Blackbird.
O Lockheed SR-71 Blackbird era um
avião de grandes proporções, com comprimento de 32,74 metros, envergadura de
16,94 metros, altura de 5,64 metros e área da asa de 172,8 metros quadrados.
Seu peso vazio era de aproximadamente 30.600 kg e o peso máximo de decolagem era
de 78.000 kg – com quase 60% desse peso máximo composto pelo seu combustível!
Não à toa, o mais comum era o
SR-71 decolar para suas missões apenas com metade do seu tanque preenchido com
combustível. Isso otimizava a performance da aeronave, que, estando mais leve,
era submetida a menor risco de acidentes, e até a menor consumo de combustível,
durante a aceleração abrupta da decolagem. Logo em seguida à decolagem bem-sucedida,
seu tanque era preenchido por abastecimento aéreo, garantindo a impressionante
autonomia de voo de 5.926 km aproximadamente.
O motor funcionava como um
turbojato convencional para acelerar, com facilidade, a aeronave até a
velocidade Mach 2,0 (2.469,6 km/h) aproximadamente. Já, a partir de Mach 2,0 a
2,6, seu componente ramjet atingia o estágio de eficiência otimizada, com uma
parte significativa do ar de entrada sendo desviada em torno do núcleo do motor
para compressão e combustão, produzindo assim a maior parte da energia
necessária para atingir velocidades em torno de Mach 3,2 (3.540 km/h) e a altitude
de até 85.000 pés (25.900 metros) aproximadamente.
O dispêndio energético era tão
grande, para acelerar o SR-71 de Mach 2,0 até Mach 3,2, que o componente ramjet
do motor produzia, sozinho, cerca de 80% da potência máxima de todo o conjunto
combinado (turbojato + ramjet).
Para melhor exemplificar o que significa essa potência, vale ressaltar que o Blackbird detém, até hoje, o recorde mundial de velocidade (Mach 3,3, cerca de 4.074,84 km/h) e de altitude (85.069 pés, cerca de 25.929 metros), ambos registrados pelo então Capitão Robert Helt, em 28 de julho de 1976. Para se ter uma ideia do que são 85.069 pés, a essa altitude, já é possível até mesmo observar a curvatura da Terra e a escuridão do espaço sideral (conforme foto abaixo, feita por um tripulante do SR-71).
Não por acaso, os tripulantes do
SR-71 tinham que usar trajes pressurizados, semelhantes aos dos astronautas (veja a foto abaixo de Bob Gilliland, o primeiro piloto a voar no SR-71).
Afinal, um incidente de despressurização na cabine, a essa altura e velocidade,
certamente seria fatal para tripulantes com trajes convencionais.
Mas não só de performance incomparável
se fez a fama dessa lendária aeronave. A aparência da sua estrutura revolucionária
também rompeu com quase todos os paradigmas da aviação nos anos 1960.
Ainda que a tecnologia stealth
se encontrasse em seu estágio incipiente, o Blackbird já trazia uma série de
conceitos inovadores visando à furtividade, tais como o revestimento da
fuselagem absorvente de ondas de radar, naceles dos motores rebaixadas e a
inconfundível silhueta alongada e achatada, com design de superfícies planas e
facetadas. Essas características estruturais, aliadas ao teto operacional e
velocidade incomparáveis, faziam do SR-71 uma aeronave extremamente furtiva.
Mesmo com mais de 30 metros de comprimento, sua seção transversal de radar
(RCS) era pouco maior do que a de um pequeno pássaro, contudo ainda menor do
que a de um ser humano.
As entradas de ar dos motores
eram um dos principais traços distintivos do projeto, pois possuíam os
chamativos cones de geometria variável, denominados “spikes” (conforme foto abaixo). Em baixas
velocidades, os “spikes” permaneciam mais avançados para permitir maior
entrada de ar. À medida que a velocidade aumentava, eles recuavam para
controlar a onda de choque, o que reduzia a admissão de ar nos motores,
mantendo a pressão e a eficiência adequadas. Um sistema muito sofisticado, que
permitia ao SR-71 otimizar sua performance de voo em ampla gama de velocidades.
O SR-71 não só podia atingir a
incrível velocidade Mach 3,2, mas também podia sustentá-la por horas, o que
gerava um estresse aerodinâmico sem precedentes. Era preciso, portanto, fazer sua
estrutura suportar altíssimas temperaturas, resultantes do atrito com o ar, que
chegavam a superar os 500 graus Celsius nos bordos de ataque da fuselagem.
Nessa conformidade, toda a
aeronave foi revestida com uma tintura especial escurecida, intitulada “ferrita
preta”, com o propósito de dissipar melhor o calor por toda a fuselagem, além
de absorver ondas de radar, configurando uma aparência sombria ao SR-71, que motivou
seu apelido de “Blackbird” (pássaro negro).
Além disso, o metal raro titânio
foi escolhido como principal material componente de sua estrutura (cerca de 93%
do avião), principalmente em razão das suas características singulares, como:
resistência, leveza e durabilidade.
Dessarte, grandes quantidades de
titânio eram necessárias para construir toda frota de Blackbirds. No entanto,
por ironia do destino, justamente a URSS era a principal produtora mundial de
titânio à época e, por óbvio, não forneceria o metal raro para seu arquirrival
em plena Guerra Fria.
Eis que a CIA precisou montar uma
megaoperação, criando empresas de fachada em diversos países, para conseguir
comprar grandes quantidades de titânio soviético, sem levantar suspeitas, para
construir suas aeronaves. Isto é, ironicamente, a URSS acabou vendendo toneladas
de titânio para os americanos construírem aviões, que, ao fim e ao cabo, espionaram
os próprios soviéticos.
Ainda assim, construir quase todo
o avião à base de titânio não resolvia todos os desafios típicos de um aparelho
supersônico desse patamar. Era preciso fazê-lo suportar o superaquecimento em
regiões críticas da aeronave e, para servir a esse complexo propósito, o
combustível especial JP-7 assumiu um papel crucial e definitivo.
O JP-7 era um combustível altamente
viscoso e com baixa volatilidade, o que o tornava ideal para operações em alta
velocidade e altitude, ajudando a dissipar o calor e evitando sua ignição
acidental. Vale dizer que era possível, na verdade, até mesmo apagar um fósforo
no combustível sem incendiá-lo – quase inacreditável!
Devido a essas propriedades
singulares, esse combustível complexo era utilizado para resfriamento dentro da
fuselagem em diversas regiões da aeronave (sistema de “fuselagem molhada”, com
2/3 da estrutura preenchida por combustível), principalmente na cabine do
piloto e sua parte dianteira – regiões submetidas ao atrito aerodinâmico
crítico.
Curiosamente, todo o Blackbird
era montado, propositalmente, com pequenas fendas entre as chapas metálicas da
sua fuselagem, de modo que houvesse espaço para o material dilatar, quando
submetido à elevadíssima temperatura dos voos supersônicos, sem deformar sua
silhueta aerodinâmica com ondulações. Em razão disso, era comum, e até normal,
o avião apresentar pequenos vazamentos do combustível, que circulava pelo
sistema de tanque integral da fuselagem.
Outra característica interessante
do projeto é que os para-brisas eram feitos de quartzo e fixados por solda
ultrassônica na moldura, para suportar a elevadíssima temperatura dos voos
supersônicos. Até mesmo os pneus do trem-de-pouso tinham sua borracha revestida
com partículas de alumínio, para melhor dissipar o calor.
Uma das maiores peculiaridades do
SR-71 consistia no seu sistema de navegação. Como ainda não existia o Sistema
GPS àquela época, o Blackbird utilizava o afamado Astroinertial Navigation
System (ANS), também apelidado de R2-D2, que funcionava rastreando estrelas no
céu com uma lente de quartzo, ainda que em plena luz do dia, para calcular a
posição da aeronave, com precisão de até 90 metros (300 pés).
Um total de 32 SR-71 Blackbird
foram construídos, destes, 12 foram destruídos em acidentes, contudo, nenhum
perdido em combate. Não por falta de tentativa dos soviéticos! Com efeito,
estima-se que tenham sido lançados milhares de mísseis contra Blackbirds,
durante suas missões secretas de espionagem, nunca sequer uma vez chegando
perto de atingi-los. Os relatos dos pilotos denotam que o plano padrão de ação
evasiva do SR-71, surpreendentemente, era tão eficiente quanto simples:
acelerar a aeronave, fugindo até que acabasse todo o combustível dos mísseis.
Nos anos 1960, os mísseis
atingiam, no máximo, velocidades pouco acima de Mach 3,0, o que não era
suficiente para superar a velocidade do Blackbird, tampouco sustentá-la por
horas aos 85.000 pés de altitude.
O SR-71 fez seu voo inaugural em 22
de dezembro de 1964, contudo, só foi revelado ao público em 1966, entrando em
serviço pela USAF naquele mesmo ano. Sua primeira missão foi em março de 1968,
mesmo ano em que o A-12 teve seu programa cancelado.
Já em 1989, foi aposentado pela
USAF, principalmente por razões políticas relacionadas ao seu elevado custo operacional,
quando já havia tecnologia alternativa e mais barata para fazer o mesmo
trabalho de vigilância, a exemplo dos satélites e drones não tripulados.
A título de curiosidade, calcula-se
que o custo de operação do Blackbird superava os impressionantes 85 mil dólares
por hora de voo. Ou seja, uma única unidade custava aos EUA até 300 milhões de
dólares por ano. Gastos que passaram a ser injustificáveis, sobretudo após o
colapso da URSS e o consectário fim da Guerra Fria.
Ainda assim, várias unidades
foram brevemente reativadas na década de 1990, sendo a NASA a operadora final
do Blackbird, usando-o principalmente como plataforma de pesquisas, até sua
aposentadoria definitiva em 1999.
O Lockheed SR-71 Blackbird
completou um total de 3.551 missões ao longo de sua carreira, em locais como:
Vietnã do Norte, Laos, Síria, Egito, Cuba, Coreia do Norte e regiões
fronteiriças da URSS. Acumulou mais de 53.490 horas de voo, das quais 11.675
horas foram operadas à velocidade Mach 3,0 ou superior.
Cerca de 60 anos após sua
construção, ele continua sendo o avião operacional mais rápido da história,
mesmo aposentado já há 25 anos. Sua tecnologia revolucionária deixou um legado
de sofisticação indelével, além de um saudoso vazio para os amantes da aviação
em todo o mundo.
No entanto, há rumores de que o
sucessor do SR-71 Blackbird, supostamente chamado Lockheed SR-72 “Son of
Blackbird”, estaria sendo desenvolvido no âmbito do “Projeto Aurora”, e que
essa aeronave teria a capacidade de atingir a inédita velocidade Mach 6,0 –
isto é, apto a chegar a qualquer lugar do planeta em menos de uma hora!
Em teoria, o SR-72 está sendo
projetado para ser uma aeronave hipersônica não tripulada, uma espécie de drone,
com capacidades de inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR), podendo ser
equipada com mísseis hipersônicos, que atingem velocidades entre Mach 5 e Mach
25.
Não há um cronograma oficial de
lançamento publicado, mas, em 2018, executivos da Lockheed Martin mencionaram
que um protótipo do SR-72 poderia voar até 2025 e que a aeronave poderia alcançar
seu estágio operacional já na década de 2030.
Isso é um alento para os entusiastas que
sonhavam ver o “Pássaro Negro” voando a três vezes a velocidade do som novamente.


















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