F-117 NIGHTHAWK: O PRIMEIRO CAÇA “FANTASMA” OPERACIONAL DO MUNDO
Durante a Guerra Fria, os Estados
Unidos da América (EUA) operaram diversos aviões com o propósito de cumprir
missões secretas de reconhecimento, tais como o Lockheed U-2, capaz de voar à
elevadíssima altitude (21.300 metros), ou Lockheed SR-71 Blackbird, o mais
veloz do mundo, com capacidade de atingir inacreditáveis 3.529 km/h (Mach 3.2),
em até 25.900 metros de altitude. No entanto, o elevado teto operacional ou a extrema
velocidade não tornavam esses aparelhos furtivos o suficiente, para passarem
despercebidos aos radares inimigos, o que tornava suas missões extremamente
arriscadas.
Para endereçar o problema, em
meados de 1975, a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency)
organizou uma competição, intitulada "pole-off", para selecionar o
melhor design de aeronave com “baixa observabilidade” (furtividade). O design
da Skunk Works, divisão de projetos secretos da Lockheed Martin, venceu a
competição, logrando sua contratação para projeto e desenvolvimento do
protótipo que veio a ser chamado “Have Blue”, um demonstrador de tecnologia
stealth, à época com apenas 60% do tamanho do F-117, mas que serviu de base para
seu projeto definitivo.
O caça-bombardeiro furtivo bimotor, de um só assento, F-117 Nighthawk, é a primeira aeronave stealth operacional do mundo. Seu projeto foi parcialmente inspirado em um estudo soviético de 1964, realizado por Pyotr Ufimtsev, no qual restou demonstrado que o cumprimento da onda de radar, quando refletida por um objeto, está mais relacionada à configuração de ângulos e bordos de ataque e de fuga desse objeto, do que propriamente com o seu tamanho. Isto é, descobriu-se que a forma de um objeto poderia torná-lo praticamente indetectável aos sinais de radar.
Como expressão material dessa
teoria, foi desenvolvido um software, denominado “Echo”, especificamente para
projetar o design do F-117, à luz do conceito de “fuselagem facetada”, com
superfícies angulares, esquema aerodinâmico de asa voadora e uma grade traseira
em forma de “V”. Suas asas e fuselagem não possuem hardpoints externos,
de modo que as armas ficam acondicionadas dentro da fuselagem. Tudo isso com o
propósito de desviar ondas de radar. Essa
aparência, estranha aos padrões convencionais da época, rendeu-lhe o apelido
jocoso de “Goblin” na Força Aérea dos Estados Unidos (USAF).
Além disso, suas turbinas possuem
um tubo de exaustão alongado e em formato retangular, para melhor dissipar o calor.
Seu painel inferior é acabado com ladrilhos cerâmicos absorventes de calor, reduzindo,
sobremaneira, sua assinatura térmica, tornando a aeronave praticamente
“invisível” aos sistemas de rastreamento inimigo. Não por acaso, durante a
Operação Tempestade no Deserto, os sauditas apelidaram a aeronave de
"Shaba", que em árabe significa "fantasma" – ou seja, um
autêntico caça “fantasma”.
Essas características, em
conjunto com as linhas retas das asas e a fuselagem plana revestida do
moderníssimo RAM (Radiation-Absorbent Material), uma espécie de material
especial apto a absorver ondas de radar, faziam do Nighthawk a aeronave mais
furtiva do mundo à época.
Para melhor exemplificar sua
capacidade stealth, o Nighthawk, quando rastreado de frente, possui uma
assinatura de radar (Radar Cross Section – RCS) tão discreta que é facilmente confundida
com o sinal de um pequeno pássaro, do tamanho de um beija-flor – ou seja, virtualmente
indetectável, mesmo para operadores de radar experientes.
O voo inaugural do Nighthawk
ocorreu em 1981 e a aeronave alcançou sua capacidade operacional em 1983 na USAF.
Todavia, o F-117 foi mantido sob extremo sigilo por anos, sendo revelado ao
público americano somente em 1988. Inclusive, nas fases iniciais do projeto, até
mesmo os pilotos e mecânicos não sabiam, exatamente, no que estavam trabalhando.
Já na sua fase operacional, nem
sequer as famílias dos pilotos sabiam sobre aspectos técnicos do F-117 ou os
locais onde operavam, sendo a aeronave frequentemente transportada sob disfarce
para evitar exposição. No geral, a vida de um piloto stealth era envolta em
tanto mistério quanto a própria aeronave. Tudo para garantir o sucesso das suas
missões furtivas.
Curiosamente, na década de 1980,
os voos secretos do Nighthawk coincidem com o
aumento significativo na estatística de avistamento de OVNIs (objetos voadores
não identificados) em determinadas regiões dos EUA. Seus testes em áreas
remotas e durante horários incomuns, além da aparência e comportamento de voo
nada convencionais para as aeronaves da época, fizeram muitos observadores acreditarem
estar realmente diante de uma nave extraterrestre.
O F-117 possui comprimento de
20,09 metros e envergadura de 13,21 metros. Seus dois motores, General Electric
F404-GE-F1D2 turbofans, sem pós-combustão (afterburner), são capazes de
gerar cerca de 21.600 libras de empuxo total, sendo a relação empuxo/peso na
ordem de aproximadamente 0,73 (considerando 29.500 libras de peso vazio da
aeronave).
Essa configuração permite ao
Nighthawk atingir a velocidade máxima de 965 km/h – portanto, um avião
subsônico. Ou seja, não se trata de uma aeronave apropriada para o combate à
curta distância (dogfight), dada a sua potência limitada, além da baixa
manobrabilidade, resultante do seu péssimo desenho aerodinâmico, que priorizou
a furtividade em detrimento do desempenho. Até por isso, o F-117 não possuía
armas para combate aproximado, como canhões, uma vez que seu emprego se dava,
exclusivamente, como um bombardeiro-furtivo para ataques de precisão à longa
distância.
A visível instabilidade
aerodinâmica era tamanha que seus pilotos pioneiros sequer acreditavam que
aquela aeronave pudesse, de fato, voar. Com efeito, isso só era possível graças
à constante assistência de sistemas computadorizados para manter o voo
controlado, como o Fly-by-Wire (FBW), o Computador de Controle de Missão IBM
AP-102, além de sistemas de navegação supermodernos para a época – com
giroscópios a laser e receptor GPS, que ofereciam uma precisão muito maior, em
comparação com os sistemas de navegação inercial usados anteriormente.
O Nighthawk possui a capacidade de carregar duas toneladas de bombas inteligentes e mísseis guiados por GPS ou laser (como as GBU-10, GBU-12 e GBU-27) e mísseis ar-superfície (como o AGM-65 Maverick e o AGM-88 HARM), além de poder operar a temível bomba atômica B-61, de até 340 quilotons – cerca de 20 vezes mais poderosa do que a bomba lançada sobre a Cidade de Hiroshima, em 1945.
O F-117 foi empregado pelos EUA,
com sucesso, em vários conflitos ao longo de toda sua história operacional,
sendo os principais: Operação Justa Causa (Panamá, 1989) – a primeira missão
real do F-117; Guerra do Golfo (1991) – com cerca de 1.600 alvos destruídos
pelo F-117; Guerra do Kosovo (1999); Guerra do Afeganistão (2001) e Invasão do
Iraque (2003).
Entretanto, em 27 de março de
1999, durante a Guerra do Kosovo, na extinta Iugoslávia, ocorreu o primeiro e
único abate de um F-117 em combate. A aeronave foi alvejada por um míssil,
disparado pelo sistema de mísseis de defesa aérea S-125 Neiva, da 250ª Brigada
de Mísseis de Defesa Aérea do Exército da Iugoslávia, sob o comando do Coronel
Zoltán Dani. O piloto americano abatido foi o Tenente-Coronel Darrell Patrick
"Dale" Zelko, que conseguiu ejetar em segurança, sendo resgatado 6
horas depois.
Na ocasião, os artilheiros antiaéreos iugoslavos notaram que os Nighthawks voavam ao longo da mesma rota repetidamente e que sua assinatura de radar aumentava instantes antes de um ataque, quando se abria o compartimento de lançamento das bombas. Essa breve janela de detecção permitiu que o sistema de mísseis antiaéreos localizasse e travasse o alvo no avião, o que possibilitou pelo menos um ataque efetivo. O aparelho abatido atingiu o solo em terreno aberto, ficando com sua estrutura base preservada, sendo entregue aos russos posteriormente.
Após esse incidente, o perfil das
portas do compartimento das bombas foi alterado, para evitar que essa técnica
de detecção expusesse o F-117 ao radar inimigo novamente.
Surpreendentemente, o
Tenente-Coronel Darrel Patrick e o Coronel Zoltán Dani se reencontraram em
2011, 12 anos após o único abate de um F-117, tornando-se bons amigos.
Foram construídos no total 64
aviões F-117, sendo 59 unidades de produção e cinco protótipos. Seu histórico
registrou aproximadamente 220.000 horas de voo em todas as operações, com
apenas sete aeronaves perdidas, seis por motivos técnicos ou erros do piloto e
apenas um abatido por um míssil inimigo.
O custo unitário do Nighthaw era
de cerca de 42,6 milhões de dólares em 1983 – equivalente a aproximadamente
110,8 milhões de dólares atuais. No entanto, se considerarmos o custo total de
desenvolvimento, produção e manutenção de cada aeronave, atingimos o custo
médio total por unidade superior a 111 milhões de dólares em 1983 – o que, por
sua vez, seria equivalente ao absurdo de 353 milhões de dólares atualmente!
Esses gastos exorbitantes foram causados,
em parte, pela severa demanda dessa aeronave por manutenção, resultante do
grande esforço computacional para estabilização de voo e desgaste estrutural peculiar
ao seu perfil aerodinâmico precário. Estima-se que para cada hora de voo do
F-117 eram necessárias impressionantes 50 horas de manutenção em média!
Em que pese os gastos totais com
o projeto, desenvolvimento, construção e manutenção de toda a frota de aviões
F-117 tenham ultrapassado os 7 bilhões de dólares nos anos 1981-2008, é certo
que seu legado não se restringe ao mero sucesso operacional indelével.
Muito mais do que isso, essa
fantástica obra-prima da tecnologia inaugurou toda nova geração de aeronaves
furtivas, servindo de base e inspiração para o desenvolvimento dos mais
modernos aviões do mundo, como o B-2 Spirit, F-22 Raptor e F-35 Lightning II – aeronaves
com tecnologia stealth ainda mais eficiente e, agora, com linhas perfeitamente
aerodinâmicas, o que torna esses modernos aparelhos furtivos muito mais
manobráveis que o pioneiro F-117 Nighthawk.
No início da década de 1990, a
Lockheed ainda propôs à Marinha dos EUA uma variante atualizada do F-117, com mais
potência e modificações estruturais específicas para operação em porta-aviões, chamada
de F-117 N "Seahawk". Contudo, a proposta foi vetada pelo
Departamento de Defesa, que não se interessou pelas capacidades de missão pouco
versáteis oferecidas.
A partir de 2005, o F-117 foi
sendo substituído paulatinamente pelo F-22 Raptor em missões furtivas, até seu
completo encerramento em 22 de abril de 2008. Ainda assim, apesar do desligamento
operacional, os Nighthawks ainda estão sendo usados pela USAF para testes e
treinamento, principalmente na instalação militar restrita do Tonopah Test
Range (TTR), no Nevada, onde são mantidos em condições de armazenamento para
eventual reativação rápida. Inclusive, em maio de 2023, dois Nighthawks foram utilizados
no exercício Northern Edge 23-1, na Joint Base Elmendorf-Richardson, no Alasca.
Aos poucos, vão sendo desmontados
os F-117 em estoque, restando apenas 48 unidades em janeiro de 2021, com
descarte de aproximadamente quatro aeronaves por ano. Peças de sua fuselagem
são comumente oferecidas a museus pelo programa de Base Estratégica da USAF.
Por derradeiro, o F-117 Nighthawk,
ao que parece, deixará os céus definitivamente em breve. Ainda assim, será
sempre saudosamente lembrado como o primeiro caça “fantasma” operacional da história.
Um autêntico ícone da aviação mundial.











Gostei dos fatos e dados e da análise!🔝👊🏻
ResponderExcluirMuito obrigado pelo feedback, Dr. Expedito! É uma honra receber suas considerações neste blog. Seja sempre muito bem-vindo!
Excluir