DESGASTE GEOPOLÍTICO RUSSO NA GUERRA DA UCRÂNIA

 


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INTRODUÇÃO

 

Rússia e Ucrânia não foram sempre nações inimigas, possuindo sua população até mesmo ancestralidade em comum, oriunda do grupo nórdico denominado “Rus”, que se estabeleceu nas comunidades eslavas orientais durante o século IX, território que corresponde atualmente ao noroeste da Rússia. Esse grupo étnico foi responsável pela fundação da Cidade de Kiev, então pertencente ao Estado de “Kyivan Rus”, cujo território se estendia do Mar Báltico (ao norte) até o Mar Negro (ao sul), durante o período compreendido entre o século IX ao século XIII.

 

Além da origem étnica comum, ambas as nações fizeram parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), sendo a República Socialista Soviética da Ucrânia sua integrante a partir de 1922. Nesse período, embora fizesse parte de um mesmo bloco junto à Rússia, a Ucrânia era relegada a uma nação de segunda linha. Especialmente na década de 1930, a Ucrânia servia como mero produtor de alimentos para os principais centros urbanos russos. Período no qual a política de coletivização forçada, de Josef Stalin, levou à desorganização da produção agrícola, à escassez de alimentos e à fome devastadora da população, episódio conhecido como “Holodomor”, que resultou na morte de cerca de 3 a 7 milhões de ucranianos. Um capítulo nefasto da era soviética, amplamente considerado como genocídio pela Ucrânia e outros países, gerando ressentimento até os dias atuais.

 

Após o colapso da URSS em 1991, originaram-se 15 países independentes: Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Estônia, Geórgia, Cazaquistão, Quirguistão, Letônia, Lituânia, Moldávia, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão. Em razão disso, novas preocupações surgiram quanto ao destino do arsenal de armas nucleares remanescente da URSS, àquela época o maior do mundo. Esse arsenal nuclear se encontrava dividido entre Rússia, que herdou cerca de 27.000 a 30.000 ogivas nucleares (o novo maior arsenal mundial); Ucrânia (com o 3º maior acervo nuclear, somente atrás dos Estados Unidos da América [EUA] e da Rússia), composto aproximadamente por 1.900 ogivas nucleares estratégicas e entre 2.650 e 4.200 armas nucleares táticas; Cazaquistão, com cerca de 1.410 ogivas nucleares, incluindo mísseis balísticos intercontinentais e bombardeiros estratégicos; e Bielorrússia, que tinha, pelo menos, 81 mísseis balísticos intercontinentais com ogivas nucleares. Ainda que os códigos de lançamento das armas nucleares soviéticas fossem um segredo bem guardado apenas por Moscou, a mera possibilidade da Ucrânia, Cazaquistão e Bielorrússia desenvolverem suas próprias armas, a partir de métodos de engenharia reversa aplicada aos arsenais baseados no seu território, traduzia legítima ameaça à paz mundial. 

 

Houve então um esforço significativo, capitaneado pela Rússia com o auxílio dos EUA, para garantir a segurança global e a não proliferação das armas nucleares ora espalhadas por essas novas repúblicas independentes. Como resultado desse esforço conjunto, Ucrânia, Bielorrússia e Cazaquistão concordaram em renunciar a seu arsenal nuclear, cedendo-o à Rússia, em troca de garantias de segurança e reconhecimento internacional, além de aderirem ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), tudo nos termos do acordo formalizado pelo Memorando de Budapeste, em 1994. Em contrapartida, a Rússia, os EUA e o Reino Unido se comprometeram a respeitar a independência, a soberania e a integridade territorial desses três países. Uma verdadeira ironia do destino, vale dizer, pois a violação territorial foi exatamente o que aconteceu em 2022, com invasão da Ucrânia por tropas russas.

 

NATUREZA DO CONFLITO

 

A Guerra da Ucrânia já é considerada o maior conflito armado pós-Segunda Guerra Mundial. Embora dados oficiais sejam mantidos em segredo por ambos os governos russo e ucraniano, como parte de uma estratégia para manter suas tropas motivadas, estimativas sugerem que o conflito já tenha provocado a morte de mais de 800.000 soldados, além de pelo menos 10.582 civis mortos e 19.875 feridos, segundo dados aproximados, em dezembro de 2023.

 

Tratar-se-ia essa guerra, a priori, de uma verdadeira batalha entre David e Golias, na qual as forças armadas russas superam, com ampla vantagem, as ucranianas em, absolutamente, todos os aspectos. Senão, vejamos os dados aproximados (antes do conflito): enquanto a Rússia possuía cerca de 559 helicópteros de ataque, a Ucrânia tinha 33; no tocante a helicópteros de transporte, a Rússia tinha 1.547 e a Ucrânia 130; aviões de transporte, a Rússia tinha 453 e a Ucrânia 24; caças de combate, a Rússia possuía 4.255 e a Ucrânia 321; porta-aviões, a Rússia tinha 1 e a Ucrânia nenhum; submarinos, a Rússia tinha 65 e a Ucrânia nenhum; embarcações de combate, a Rússia possuía 781 e a Ucrânia 104; soldados da reserva, a Rússia possuía 2.000.000 e a Ucrânia 1.200.000; soldados em atividade, a Rússia tinha 1.320.000 e a Ucrânia 900.000; unidades de artilharia rebocada, a Rússia tinha 8.356 e a Ucrânia 1.012; unidades de sistema de lançamento múltiplo de mísseis, a Rússia tinha 3.065 e a Ucrânia 491; blindados, Rússia tinha 14.777 e a Ucrânia 1.777; mísseis balísticos, Rússia possuía 1.561 e a Ucrânia nenhum; ogivas nucleares, a Rússia possui 5.580 e a Ucrânia nenhuma.

 

Mas como é possível, então, que forças militares, muito menores, menos experientes e menos equipadas, possam resistir, por mais de dois anos, a uma guerra travada contra a segunda mais poderosa potência militar do planeta? A resposta é simples: a Ucrânia já recebeu dos EUA, desde o início do conflito, cerca de $76 bilhões de dólares, incluindo $51,6 bilhões em ajuda militar, além de ter recebido cerca de $117 bilhões de Estados Membros da União Europeia (UE), na forma de assistência financeira, militar e humanitária para refugiados. Inclusive, a UE comprometeu até $54 bilhões adicionais para a recuperação e reconstrução da Ucrânia até 2027.

 

É, portanto, basicamente, uma guerra entre a Ucrânia, constantemente abastecida por países signatários da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), contra a Rússia, auxiliada por seus aliados, o chamado “Eixo das Autocracias”, que tem como principais lideranças China, Rússia, Irã e Coreia do Norte. Com efeito, ainda que as alegadas justificativas russas para a invasão da Ucrânia sejam: 1) a necessidade de contenção da ameaça expansionista da OTAN até as fronteiras da Rússia; 2) a necessidade de “desnazificação” da Ucrânia; e 3) a proteção de povos originários russos, residentes no leste ucraniano; há além desses, decerto, interesses maiores, consubstanciados no propósito macro de desbancar a hegemonia ocidental, capitaneada principalmente pelos EUA e seus aliados europeus.

 

HISTÓRICO DO CONFLITO


Três meses antes do ataque inaugural russo, o serviço de inteligência dos EUA, convicto dos planos de invasão, avisara ao Presidente Joe Biden, que emitiu, nos meses seguintes, diversos alertas às autoridades ucranianas e europeias acerca do risco iminente. Naquela ocasião, já era possível visualizar, por imagens de satélite, a formação de um contingente colossal de soldados, veículos e blindados russos se aglomerando nas proximidades da fronteira da Ucrânia com a Rússia e com a Bielorrússia. No entanto, quando o Presidente russo Vladimir Putin foi confrontado pelas lideranças ocidentais acerca de suas reais intenções, alegou não passarem de exercícios de treinamento militar – algo totalmente incompatível com aquele gigantesco arsenal, em estado de prontidão, no limiar fronteiriço.

 

Ainda que a Casa Branca estivesse certa da premência do conflito, a maioria das lideranças europeias se mantinham céticas de que Putin colocaria em prática seu plano expansionista. Deveras considerando a preciosa receita financeira oriunda do fornecimento de petróleo e gás natural russo aos países europeus. Algo que, naturalmente, estaria sob a mira de eventuais sanções, ante a hipótese de invasão russa a uma nação europeia. No entanto, nada disso provocou temor o suficiente para dissuadir Putin. Especialmente porque o líder russo havia se reunido com Xi Jinping, cerca de vinte dias antes da invasão, pactuando as imprescindíveis garantias comerciais entre Rússia e China, no âmbito da sua denominada “Aliança Sem Limites”.

 

Essa aliança sino-russa, em linhas gerais, garante a receita necessária para Putin manter sua máquina de guerra, tornando pouco ou nada eficazes as sanções comerciais norte-americanas e europeias, bem como proporciona o abastecimento da economia chinesa, em franco crescimento, com petróleo e gás natural russo a preços descontados em até 50%. Isto é, sem o amplo apoio chinês, ainda que indireto, não haveria meios de Putin sustentar seu esforço de guerra a médio e longo prazo.

 

Dito isso, na madrugada de 24 de fevereiro de 2022, tropas russas, com um efetivo militar aproximado de 190 mil soldados, invadiram a Ucrânia por quatro regiões principais: ao norte, via Bielorrússia (país aliado da Rússia), com o propósito óbvio de tomar Kiev; ao nordeste, da Rússia em direção a Kharkiv; ao leste, vindo da República Popular de Donetsk e da República Popular de Lugansk; e ao sul, via Crimeia.

 

Mesmo após instaurado o conflito, houve a proibição expressa de que meios de comunicação russos se referissem ao evento como “guerra”, sendo formalmente adotada a alcunha de "Operação Militar Especial na Ucrânia" por toda a mídia russa, a mando do Kremlin. Momento a partir do qual, qualquer caso de desobediência passou a ser reprimido à força em solo russo.

 

Os ucranianos já esperavam a invasão e haviam se preparado para proteger, principalmente, seu centro de comando em Kiev, instruídos com dados da inteligência norte-americana. Afinal, não restava dúvida de que o principal propósito de Putin com a guerra era tomar Kiev em poucos dias, evitando bombardear suas principais estruturas administrativas, para que fosse possível substituir, rapidamente, o atual Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por um governante pró-Rússia. O que transformaria a Ucrânia em mais um Estado vassalo do Kremlin, antes mesmo que países da UE e os EUA pudessem confrontar a Rússia diretamente naquele teatro de operações.

 

Os planos de Putin, por muito pouco, não deram certo! As forças russas chegaram a ocupar 20% do território ucraniano, aproximando-se a cerca de 25 quilômetros do centro de Kiev, travando combates intensos em áreas como Irpin, Bucha e Hostomel, subúrbios próximos da capital. De uma população total de 41 milhões, cerca de 8 milhões de ucranianos foram deslocados internamente (mais de 8,2 milhões fugiram do país até abril de 2023, criando a maior crise de refugiados da Europa desde a Segunda Guerra Mundial).

 

Até por isso, inicialmente, houve certa “demora deliberada” para as lideranças ocidentais enviarem equipamentos militares à Ucrânia. Afinal, existia um consenso internacional no sentido de que a defesa ucraniana sucumbiria em poucos dias. E, caso países da aliança ocidental enviassem equipamentos militares ultramodernos e esses terminassem sob domínio russo, vários segredos tecnológicos, do padrão OTAN, poderiam ser descobertos via engenharia reversa. Isso representaria enorme risco à segurança nacional dos países da aliança.

 

Em razão desse atraso para obter ajuda, a Ucrânia teve de sobreviver, sozinha, àqueles primeiros dias!  Por certo, não obstante a preciosa orientação inicial da inteligência norte-americana, frise-se: os ucranianos resistiram à esmagadora invasão russa por seus próprios meios e notável bravura!

 

Por falar em bravura, é de se ressaltar que países da OTAN ofereceram asilo para que o Presidente Zelensky deixasse Kiev e comandasse a defesa ucraniana à distância, no entanto, ele se recusou a sair, alegando, literalmente: “Não preciso de carona, mas sim de armas!”. Essa atitude corajosa serviu para projetar internacionalmente a imagem carismática de um heroico líder ucraniano, o que, por sua vez, despertou empatia até mesmo entre chefes de Estado outrora mais reticentes a se manifestar sobre o conflito. Essa guinada propagandística de Kiev foi fundamental para motivar países, daquele momento em diante, a enviar armas e ajuda financeira para a Ucrânia.

 

A ESTRATÉGIA RUSSA MAL-PLANEJADA

 

O insucesso da primeira investida russa, ao que parece, também se deu por escolhas equivocadas de seu Estado-Maior. Em geral, a doutrina de combate russa é a mesma da extinta URSS, com algumas adaptações ao combate moderno. Essa doutrina é no sentido de que incursões terrestres, visando à ocupação de território, como no caso da Guerra da Ucrânia, devem ser precedidas de bombardeio aéreo massivo a instalações militares estratégicas do inimigo, para garantir o controle do espaço aéreo e minar sua capacidade defensiva, facilitando o ulterior ataque terrestre, sofrendo, com isso, o mínimo de baixas atacantes.

 

Todavia, não foi isso que aconteceu. Contrariou-se a própria doutrina soviética, executando ataques aéreos, navais e incursões terrestres, simultaneamente, em várias localidades do território ucraniano. Isso resultou na dispersão do efetivo russo e, por conseguinte, a menor intensificação do assalto ao seu principal alvo: Kiev. Além do que, havia uma certa preocupação russa em não arruinar os centros administrativos de Kiev, conforme mencionado, resultando em ataques de intensidade contida e mais facilmente suportados pelas defesas do comando ucraniano.

 

Nessa mesma toada, ressalta-se que a maioria dos oficiais do exército russo nem sequer tinha certeza se haveria, de fato, a invasão russa, até instantes antes de ser anunciada a ordem definitiva para atacar. Essa incerteza foi, provavelmente, premeditada pelo Kremlin, para evitar vazamentos de informações que pudessem beneficiar a estratégia de defesa ucraniana. O que, evidentemente, não funcionou, considerando os alertas norte-americanos sobre a invasão iminente três meses antes do evento. Ainda assim, essa incerteza, dominante no alto escalão russo, operou claramente em desfavor das tropas, diminuindo seu nível de prontidão e acuidade estratégica, durante as primeiras incursões em solo ucraniano. Isso sem mencionar o apoio logístico despreparado para uma demanda descomunal, típica de uma guerra, focada no fornecimento de munições, equipamentos e suprimentos para as tropas longe de suas bases.

 

Acredita-se que todo esse planejamento errático da operação seja, com efeito, uma consequência trágica de peculiaridades típicas de um governo autocrático, como é o de Putin. Afinal, quanto mais tempo um líder autoritário permanece no poder, maior tende a ser o descontentamento popular e, por sua vez, maior é a necessidade de se reprimir dissidentes pelo uso da força.

 

Líderes como Putin costumam ficar paranoicos com o passar do tempo, desconfiando de todos ao seu redor. E não seria por menos, uma vez que o líder russo já foi alvo de dezenas de atentados contra sua vida, mesmo dentro de seu próprio território. Assim, seu círculo de confiança tende a ficar cada vez mais restrito, com menos oficiais autorizados a acessá-lo diretamente. O que tende a prejudicar a comunicação interna e a clareza das informações prestadas pelo alto escalão ao seu líder.

 

Esse cenário, de repressão excessiva, gera uma atmosfera de temor generalizado, inclusive nos aliados mais próximos do líder russo. O que desincentiva, por óbvio, oficiais do Estado-Maior a informar desafios técnicos importantes das operações, os quais eventualmente pudessem desagradar a Putin. Ou seja, poucos, nas atuais condições de governança russa, arriscariam dizer que o ataque inaugural à Ucrânia não teria sucesso, sendo efetuado nas condições em que se deu. Ninguém quer ser o portador de uma notícia ruim naquele regime opressor.

 

A CONTROVERTIDA TÁTICA RUSSA DE “ONDAS HUMANAS”

 

Não bastasse o planejamento operacional errático da invasão russa, há, outrossim, indubitável teimosia no emprego de táticas obsoletas, herdadas da era soviética. Sendo, de longe, a pior delas a polêmica tática de “ondas humanas”. Praticada em larga escala pelo exército russo e pelo seu grupo de mercenários (Grupo Wagner), essa abordagem consiste em enviar grande número de soldados, considerados descartáveis, em ataques sucessivos a posições inimigas, com pouca ou nenhuma consideração pelas baixas atacantes. Essas sucessivas ondas de soldados visam sobrecarregar as defesas do inimigo pela superioridade numérica, esperando que a quantidade de atacantes eventualmente supere a resistência defensiva. No entanto, seu emprego tem sido catastrófico para as forças russas naquele teatro operacional.

 

Estatisticamente, é cediço que forças atacantes costumam sofrer até três vezes mais baixas do que forças defensivas. No entanto, esse método de assalto arcaico tem ocasionado assombroso número de baixas russas, bem acima de quaisquer parâmetros racionais, um verdadeiro “moedor de carne” russo – alcunha geralmente mencionada pela imprensa internacional. Isso tem comprometido o moral das tropas russas, desencadeando alto índice de deserção de militares e pavor na população civil, diante da perspectiva de novas convocações compulsórias para recompor as tropas. Em razão disso, estimativas apontam êxodo de centenas de milhares de cidadãos russos desde o início do conflito.

 

Para contornar as limitações por que passam as forças militares russas, tanto o exército regular quanto o grupo de mercenários passaram a contar com prisioneiros para integrar seus pelotões. Os chamados “Pelotões Storm” são compostos, quase na sua totalidade, por prisioneiros, os quais optaram por ir à guerra em troca do perdão da pena, caso sobrevivam até o final do conflito.

 

Ocorre que esses pelotões são justamente aqueles mais utilizados para compor as famigeradas “ondas humanas” e, logicamente, a maioria de seus soldados não retorna viva de suas missões praticamente suicidas. Os “soldados prisioneiros” recebem, em média, somente 15 dias de treinamento, além de equipamentos em péssimo estado. Essa combinação precária resulta na impressionante estatística de sobrevivência de meros 2 a 3 meses quando postos em combate.

 

CRISE DE LEALDADE INTERNA

 

Os graves problemas de dissidência interna não param por aí. O Grupo Wagner é uma organização paramilitar privada russa, fundada em 2014 por Dmitri Utkin, um ex-oficial das forças especiais (Spetsnaz), cujo codinome era “Wagner” (que deu nome ao grupo) e por Yevgeny Prigozhin, um oligarca que possuía fortes ligações pessoais com Putin.

 

Esse grupo é composto por mercenários e tem sido empregado em diversos conflitos ao redor do mundo (Síria, Líbia, Mali, República Centro-Africana, Moçambique, Sudão, Venezuela e Irã), quase sempre em missões que requerem negação plausível oficial do governo russo. No geral, sua organização oferece serviços de segurança e apoio militar a governantes autoritários, em troca de acesso a recursos naturais, preciosos para o abastecimento da gigantesca máquina de guerra do Kremlin.

 

Em que pese a reconhecida importância estratégica dos mercenários para o Kremlin, o Grupo Wganer protagonizou, em plena guerra da Ucrânia, o maior escândalo de deserção da era moderna. Sob holofotes e lentes de todo o mundo, em 24 de junho de 2023, Prigozhin liderou um motim, com cerca de 5.000 mercenários, na chamada “marcha pela justiça” em direção a Moscou, logo após ter criticado o alto escalão russo, afirmando que o Ministério da Defesa deixou o Grupo Wagner sem munição e entregue à própria sorte. Acusou, especificamente, o então ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e o chefe do Estado-Maior, Valery Gerasimov, de traição. Os mercenários chegaram muito perto de seu destino, a aproximadamente 200 km de Moscou. Somente interrompendo a marcha após difíceis negociações, mediadas pelo presidente da Belarus, Aleksandr Lukashenko.

 

Após esse episódio dramático e a aparente reconciliação do Grupo Vagner com o Kremlin, misteriosamente, Prigozhin e Utkin morreram, em 23 de agosto de 2023, durante a queda de sua aeronave, na região de Tver, em um voo de Moscou para São Petersburgo, matando todos os dez passageiros. A causa exata do acidente ainda está sob investigação, havendo especulações no sentido de que uma explosão a bordo possa ter sido a causa. Obviamente, o Kremlin nega qualquer envolvimento no incidente, existindo, contudo, um consenso jornalístico no sentido de que essa provável execução não tardaria a acontecer. Afinal, não tem dado certo antagonizar os interesses de Putin naquele regime.

 

Desde que Putin assumiu o cargo de Presidente interino, em 31 de dezembro de 1999, após a renúncia de Boris Yeltsin, há registros de dezenas de mortes de candidatos políticos, jornalistas, ex-agentes da extinta KGB, ex-aliados políticos, todos em situações suspeitas (envenenados, baleados, defenestrados [queda misteriosa de janela] e até mortos em acidentes aéreos), mas sempre com um fator em comum: cometeram o erro de confrontar os interesses de Putin.

 

AMEAÇA EXPANSIONISTA DA OTAN

 

Uma das principais justificativas de Putin para a invasão à Ucrânia concerne à necessidade de conter o expansionismo da OTAN até as fronteiras da Rússia. E, decerto, trata-se de uma preocupação legítima russa. Senão, vejamos a seguir.

 

A queda do Muro de Berlim, entre os dias 9 e 10 de novembro de 1989, é o marco que simboliza o fim da Guerra Fria entre os EUA e a URSS. Logo em seguida, em 1991, ocorreu a dissolução da URSS em 15 países soberanos. Naquela ocasião, embora não tenha sido celebrado um tratado formal, por meio do qual a OTAN se comprometesse a não expandir seus “domínios” no sentido do leste europeu, aproximando-se da fronteira russa, houve sim promessas verbais de líderes ocidentais nesse sentido, o que não foi cumprido nas décadas seguintes. Sendo admitidos na aliança Polônia, Hungria e República Tcheca, em 1999; Bulgária, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia, Eslovênia e Estônia, em 2004; culminando com a possibilidade de adesão da Geórgia e da Ucrânia, em 2008, duas ex-repúblicas soviéticas que fazem fronteira com a Rússia. Fato este considerado inaceitável pelo Kremlin e decisivo para deflagrar a invasão russa à Geórgia, em agosto de 2008, para apoiar movimentos separatistas das regiões da Ossétia do Sul e da Abecásia, as quais buscavam sua independência desde a dissolução da URSS.

 

Mesmo assim, a aliança continuou se expandindo nos anos que se seguiram, com a admissão da Albânia e da Croácia, em 2009; de Montenegro, em 2017; da Macedônia do Norte, em 2020; e, após o início da Guerra da Ucrânia em 2022, Finlândia e Suécia ingressaram às pressas na aliança, encerrando seu tradicional histórico de não alinhamento geopolítico. A Ucrânia teve seu processo de integração na aliança interrompido, uma vez que o atual estado de guerra impede sua admissão.

 

Trata-se, pois, de um ciclo vicioso que só faz piorar as tensões entre os atores envolvidos. De um lado, países que são incapazes de se defender do gigante russo e, justamente por isso, buscam integrar as forças da OTAN, para poder contar com a defesa dos EUA. De outro, a Rússia que, sendo a segunda mais poderosa potência militar do mundo, naturalmente, não vai aguardar inerte a OTAN expandir seus domínios, até instalar mísseis nucleares nas imediações da fronteira russa.

 

ORIGEM DA CRISE SOCIOPOLÍTICA RUSSO-UCRANIANA

 

Em 2010, Viktor Yanukovych, candidato ucraniano de orientação política pró-Rússia, conseguiu assumir a Presidência da Ucrânia, refreando a aproximação de seu país com a UE. Isso desencadeou uma onda de protestos, sendo o ápice da crise verificado durante os chamados “Protestos Euromaidan” (ou “Revolução da Maidan”), entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014, quando o Governo Yanukovych suspendeu a assinatura de um Acordo de Associação com a UE, mesmo após aprovação do acordo, por ampla maioria, no Parlamento ucraniano, optando assim por estreitar laços com a Rússia.

 

Para controlar a onda de protestos, o Yanukovych fez uso de violência excessiva contra manifestantes, resultando em muitos mortos e feridos. Essa desastrosa ação repressiva só fez piorar seu apoio político e, em fevereiro de 2014, o Parlamento ucraniano votou pela sua destituição, citando abuso de poder e abandono do cargo. Em meio à escalada dos protestos, Yanukovych fugiu de Kiev, buscando refúgio na Rússia, que considerou sua destituição um golpe de Estado.

 

A crise político-social continuou se agravando, mesmo após a destituição de Yanukovych. Movimentos pró-Rússia começaram a incitar a população no leste e no sul da Ucrânia. Soldados russos sem insígnias, infiltrados na população civil, ocuparam a região da Crimeia, apossando-se de prédios oficiais do governo ucraniano. Essa manobra contou com o apoio popular na região, cujos habitantes, majoritariamente de origem russa, vinham sofrendo perseguição de cidadãos e autoridades ucranianas, segundo relatos do Kremlin. Após um referendo, amplamente contestado internacionalmente, a Rússia anexou a Crimeia em março de 2014. Em resposta, países do G8 expulsaram a Rússia da organização, que passou a contar apenas com sete integrantes: EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá.

 

Ainda sobre a região da Crimeia, impele fazer breve observação. Essa região era uma possessão russa que foi cedida à Ucrânia em 1954, como um gesto simbólico de união, por decisão do então Secretário-geral soviético, Nikita Khrushchev, que era um ucraniano nativo. Isto é, para os russos, tratava-se de uma questão de honra reincorporar aquela região ao território russo, uma vez rompidas as relações cooperativas com a Ucrânia, sobretudo em razão da sua aproximação com países da UE e rivais da Rússia.

 

Já em abril de 2014, mais um novo episódio insurgente se seguiu na Ucrânia, com a chamada “Guerra do Donbass”, quando separatistas armados, apoiados diretamente por tropas russas, tomaram prédios do governo ucraniano e “proclamaram a independência” da República Popular de Donetsk e da República Popular de Luhansk.

 

Em resposta aos movimentos insurgentes da intitulada “onda nacionalista russa”, o Parlamento ucraniano votou, em dezembro de 2014, pela remoção da “cláusula de neutralidade” da sua Constituição, permitindo, assim, que fosse submetido o requerimento de adesão da Ucrânia à OTAN. Contudo, em razão das "disputas territoriais externas não resolvidas" com a Rússia, o ingresso ucraniano não foi aprovado.

 

Negociações mediadas principalmente por Alemanha e França progrediram no chamado “Formato da Normandia”, até a celebração dos “Acordos de Minsk”, em setembro de 2014 e fevereiro de 2015. No entanto, todos acordos falharam, incapazes de pôr termo ao conflito.

 

A relação entre os dois países continuou a se deteriorar, até deflagrar a já mencionada invasão russa ao território ucraniano, na madrugada de 24 de fevereiro de 2022. O que se seguiu de novos referendos, realizados às pressas, por meio dos quais o Kremlin “oficializou”, dia 30 de setembro de 2022, a anexação dos territórios ucranianos de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson à Rússia (cerca de 15% do território da Ucrânia).

 

Essa anexação traduz uma manobra geopolítica definitiva para consolidar o controle russo do Mar Negro, na tentativa de evitar a destruição de mais embarcações militares russas. Até o momento, estima-se que Kiev já destruiu mais de um quinto da frota russa naquela região, onde se situa a maior base naval da Rússia, em Sebastopol, na Criméia – já anexada pela Rússia em março de 2014.

 

CONSEQUÊNCIAS GEOPOLÍTICAS DA GUERRA DA UCRÂNIA

 

A instauração de um conflito duradouro e em larga escala era, de fato, um risco possível, porém improvável, ao menos, no cálculo prognóstico do Kremlin. O plano original não deu certo e a situação parece ter fugido de controle, consolidando um cenário desafiador doravante para Rússia. Como veremos a seguir.

 

Isolamento e sanções da UE e dos EUA: estima-se que, desde o início da invasão à Ucrânia em fevereiro de 2022, tenham sido congelados por países ocidentais até 300 bilhões de euros em ativos financeiros russos. Há, inclusive, um plano para utilizar, na forma de ajuda financeira à Ucrânia, os juros sobre rendimentos gerados por esses ativos russos.

 

Além disso, mais de 300 bancos russos foram banidos do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), o qual permite transferências seguras e padronizadas de informações entre bancos e outras instituições financeiras em todo o mundo.

 

Dependência russa da China: embora Putin tenha sido precavido, estreitando os laços com Xi Jinping antes da invasão à Ucrânia, é certo que a Rússia perdeu muito com a guerra – ou pelo menos deixou de ganhar. Cerca de 27% do PIB da Rússia é proveniente da indústria de hidrocarbonetos, o que compreende a receita oriunda da venda de gás natural e petróleo russo. Suas exportações representam cerca de 57% do total exportado pelo país. E, como sabemos, graças à “Aliança Sem Limites” sino-russa, a Rússia tem garantida a compra desses produtos pela China, contudo a preços descontados em até 50%. Cerca de 37% de todas as importações russas são de bens chineses, enquanto a China compra em torno de 32% de toda exportação russa. Desde que a UE embargou a Rússia a partir de 2022, a China comprou quase metade das exportações de petróleo bruto russo.

 

Todo esse cenário é ótimo para a China, que continua crescendo, agora, com recursos energéticos pela metade do preço de mercado. Além de ter cada vez mais dependente da sua economia a grande máquina de guerra russa. Embora essa parceria seja vital para a Rússia neste momento, seu isolamento e a extrema dependência da China podem ser perigosos no longo prazo, considerando que há diferenças ideológicas marcantes em seus governos e disputas territoriais não resolvidas há décadas entre os países. Algo que parece só ter sido adiado, deixado de lado enquanto prevalecer o propósito maior comum: superar a hegemonia norte-americana. 

 

Enquanto isso, por falar em EUA, o principal rival chinês atravessa grave crise econômica e político-social. Washington tem enviado vários pacotes bilionários de ajuda financeira e militar à Ucrânia, Israel e Taiwan, aumentando sobremaneira gastos públicos, o que contribui para o aumento da inflação e a consequente manutenção da taxa básica de juros nas alturas. Tudo isso só faz aumentar sua dívida pública, já virtualmente impagável, na casa dos $34 trilhões de dólares. Não bastasse isso, a acirrada disputa presidencial norte-americana de 2024 é motivo de grande preocupação, ameaçando atingir o ponto de ruptura da ordem social, motivada pela crescente rivalidade entre Democratas e Republicanos. Dito isso, não resta dúvida. Quem mais ganhou, até agora, com a Guerra da Ucrânia foi a China!

 

Aliança militar entre Rússia e Coreia do Norte: o acordo de defesa mútua entre a Rússia e a Coreia do Norte, formalizado em junho de 2024, consiste em uma plataforma com cinco eixos principais: 1) Assistência Mútua, com ambos os países se comprometendo a defender um ao outro diante de um ataque armado; 2) Cooperação Militar, consistente no compartilhamento de equipamento e tecnologia militar, além da realização de manobras conjuntas; 3) Proibição de Tratados com Terceiros, os países não podem assinar tratados com outras nações que prejudiquem os interesses da Rússia ou da Coreia do Norte; 4) Uso de Território, os países estão proibidos de autorizar o uso de seu território por terceiros, se isso trouxer risco à segurança ou à soberania do outro; e 5) Tecnologia, cooperação no âmbito de pesquisas espaciais, da energia nuclear e inteligência artificial.

 

Essa aliança militar foi, certamente, uma manobra inteligente de Putin. Ambos os países ganham muito com isso. De um lado, a Rússia repõe munições de artilharia indispensáveis para sustentar seu brutal esforço de guerra na Ucrânia, haja vista possuir a Coreia do Norte estoques escomunais, acumulados por décadas, desde a era soviética. De outro, o líder supremo da Coreia do Norte, Kim Jong-um, conquista a tecnologia balística necessária para otimizar seu acervo nuclear, compartilhada pela Rússia, um dos maiores expoentes tecnológicos no assunto.

 

Dessa forma, em paralelo, é providencialmente suavizada a dependência entre Moscou e Pequim. Uma vez que a Coreia do Norte, mais recente potência nuclear, já alcançou poder e influência minimamente relevantes no contexto geopolítico moderno.

 

A militarização da economia russa: essa estratégia envolveu várias medidas para redirecionar recursos e aumentar a produção de armamentos. A primeira delas foi destituir do cargo o então Ministro da Defesa Sergei Shoigu e no seu lugar empossar   

Andrei Belousov, um economista com experiência em inovações tecnológicas.

 

Outras medidas importantes foram: Reorientação da Indústria, que significa converter fábricas civis para a produção de itens militares; Aumento da Produção, para intensificar a reposição de armas, munições, tanques, mísseis e outros equipamentos militares; e Mobilização de Recursos, designando mais recursos financeiros e materiais para apoiar a indústria de defesa. Além de priorizar matérias-primas para a produção de armamentos.

 

Essas medidas permitiram à Rússia sustentar seu esforço de guerra até agora, evitando um colapso econômico pleno. Ainda assim, é uma medida naturalmente impopular, pois impacta diretamente o modo de vida da população civil. Isso contribui para possível eclosão de movimentos insurgentes a longo prazo. Uma estratégia bem arriscada, vale dizer.

 

A estratégia midiática assertiva da Ucrânia:  os ucranianos têm sido muito pragmáticos, otimizando suas estratégias naquele cenário operacional, sempre em consonância com as limitações materiais de seus equipamentos e munições. Suas forças, antes treinadas à luz da vetusta doutrina soviética, agora têm se capacitado com a moderna doutrina de combate no padrão OTAN.

 

As forças de Kiev já dispõem, inclusive, de equipamentos de última geração, tais como: sistema de defesa antiaérea Patriot dos EUA, capaz de interceptar mísseis balísticos e aeronaves; o ATACMS (Army Tactical Missile System) dos EUA, um sistema de mísseis balísticos táticos de precisão; mísseis de cruzeiro Storm Shadow de produção franco-britânica, com capacidade de longo alcance (até 300 km), projetado para ataques de precisão contra alvos estratégicos e militares; e caças multifunção F-16 de quarta geração modernizados, fabricados no âmbito da parceria militar entre Dinamarca e os EUA, com ampla flexibilidade para superioridade aérea, ataques de precisão ao solo e interdição. Essas aeronaves podem alterar, significativamente, o equilíbrio de poder no espaço aéreo, forçando a Rússia a reavaliar suas estratégias.

 

Essa combinação, de táticas bem planejadas e equipamento sofisticado, tem sido providencial para garantir menos baixas ucranianas, se comparadas às russas, além de aumentar a credibilidade quanto à capacidade das forças de Kiev aos olhos das lideranças ocidentais. Graças a essa competente campanha midiática ucraniana, Kiev tem recebido cada vez mais apoio da UE, sobretudo diante da preocupante hipótese de Donald Trump retornar à Casa Branca e pôr em prática seu plano de cortar a ajuda financeira para Ucrânia.

 

A mera ameaça de Trump no sentido de retirar os EUA da OTAN, caso eleito presidente, ou negar ajuda militar a países da aliança que não invistam, pelo menos, 2% do seu PIB em forças armadas, já foi o estopim para a nova corrida armamentista na UE. Diversos países se apressaram para aumentar gastos com forças armadas, mudar sua legislação para instaurar o serviço militar obrigatório e até, em alguns casos, disponibilizar seus territórios para basear armas nucleares norte-americanas, como foi o caso recente da Alemanha. Sendo assim, os EUA já possuem armas nucleares na Europa armazenadas na Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia.   

 

Importante trazer à baila, nesse momento, que a ajuda europeia à Ucrânia não traduz mero altruísmo, mas sim uma espécie de seguro, ou investimento em causa própria. Os europeus acreditam que os planos expansionistas de Putin não serão satisfeitos apenas com sua eventual vitória na Guerra da Ucrânia. Pelo contrário, essa vitória pode significar a renovação de suas ambições, desencadeando a provável invasão de outros países da Europa. Sendo, portanto, a Ucrânia uma espécie de baluarte europeu contra o expansionismo do gigante russo.

 

A ousadia ucraniana alçou patamares inéditos: em 6 de agosto de 2024, cerca de 1.000 soldados ucranianos, apoiados por 20 veículos de combate e pelo menos 11 blindados, invadiram o Oblast de Kursk no sudoeste da Rússia. É a primeira vez que a Rússia é invadida desde a Segunda Guerra Mundial – naquela ocasião, ocorreu a chamada “Operação Barbarossa”, em 22 de junho de 1941, quando a URSS foi invadida pelas forças do “Eixo”, compostas por Alemanha, Japão e Itália. É, outrossim, a primeira vez que uma potência nuclear teve seu território invadido. Ou seja, trata-se de uma operação militar sem precedentes na História!

 

Há informações de que as incursões ucranianas em solo russo contaram com o apoio de pelotões de soldados russos pró-Ucrânia e contra o Governo Putin, tais como o “Corpo Russo de Voluntários”, a “Legião Pela Liberdade da Rússia” e o “Batalhão Sibéria”, em sua maioria reforçados por unidades polonesas, georgianas e chechenas.

 

Segundo informações do governador interino de Kursk, Alexei Smirnov, soldados ucranianos já controlam 28 distritos naquela região, em uma área com 2.000 moradores, sendo o avanço das forças ucranianas de, aproximadamente, 12 quilômetros dentro do território russo. Mais de 100 soldados russos foram capturados pelas forças de Kiev durante a operação. Foi decretado estado de emergência na região e estima-se que mais de 200 mil pessoas foram evacuadas das proximidades fronteiriças. É a primeira vez que a população russa sente, de fato, que seu país está em guerra e não executando uma mera "Operação Militar Especial na Ucrânia".

 

Conquanto seja claro que Kiev não possui meios materiais de manter as posições conquistadas em Kursk, é inquestionável terem sido atingidos os objetivos midiáticos da operação. Uma estratégia inteligente, por meio da qual se feriu duramente a imagem do Governo Putin. Quem sabe até capaz de abalar seu já claudicante apoio popular. Afinal, seus cidadãos passaram a ter legítimas dúvidas quanto à capacidade de seu líder os proteger, mesmo diante de um inimigo mais fraco.

 

Da mesma forma, essa breve ocupação de território russo obriga a dispersão das forças do Kremlin, que precisa redesignar pelotões experientes e mais bem preparados para atuar no Oblast de Kursky expulsando os ucranianos. Isso pode enfraquecer a frente russa no leste ucraniano, possibilitando a eventual recuperação de territórios ucranianos, tais como: Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson.

 

Essa operação ousada de Kiev é, de igual maneira, também parte de um complexo jogo estratégico, que visa melhorar possíveis barganhas ucranianas, durante uma eventual negociação entre Rússia e Ucrânia, para pôr fim ao conflito.

 

CONCLUSÃO

 

O prolongamento indefinido da guerra só atende aos interesses chineses, visto que drena recursos erodindo a já combalida economia norte-americana e europeia, ao passo que agrava severamente os laços de dependência de Moscou com Pequim.

 

Já no que concerne ao Governo Putin, certamente, a tendência é só aumentar as pressões de seus apoiadores mais radicais, no sentido de encerrar o conflito de forma devastadora e exemplar. O que, por si só, é preocupante!

 

No alto escalão russo, há aqueles que acreditam ser o uso de bombas nucleares táticas na Ucrânia uma opção conveniente, para sacramentar a vitória russa e encerrar definitivamente o conflito. A retórica cada vez mais agressiva no discurso do Vice-presidente do Conselho de Segurança da Federação Russa, Dmitri Medvedev, dá sinais muito claros disso.

 

Esses radicais acreditam que, caso a Rússia atinja a Ucrânia com bombas nucleares táticas (menos poderosas do que bombas nucleares de destruição em massa), nenhuma outra potência atômica arriscaria contra-atacar a Rússia com igual poder destrutivo, temendo que essa retaliação seja o estopim da destruição mútua assegurada. Infelizmente, esse raciocínio procede à luz da lógica. Com efeito, parece improvável os EUA ou a UE retaliar eventualmente a Rússia com armas nucleares, se isso for certamente desencadear a Terceira Guerra Mundial e, muito provavelmente, a extinção do mundo como o conhecemos.

 

Não é fácil para Putin manter-se no poder sem ceder, vez por outra, aos anseios radicais de seus apoiadores mais poderosos. É, por certo, uma equação delicada de se equilibrar, sobretudo no contexto de um regime autoritário. É preciso consolidar diuturnamente uma imagem imponente e impiedosa, até mesmo para dissuadir eventuais movimentos golpistas internamente ao Kremlin.

 

Ainda assim, o uso de armas nucleares russas, mesmo que menos poderosas (táticas), concerne um limite que, se ultrapassado, certamente abalaria as relações entre Rússia e China. Afinal, Pequim aprendeu com os erros da antiga URSS e entendeu que: para se manter o maior poderio militar do mundo é preciso ter consolidado também a mais forte economia de todas. Ou seja, o soft power e o hard power devem ser desenvolvidos simultaneamente! E, justamente por isso, não é o momento ideal para a China confrontar diretamente os EUA, muito menos de forma precipitada, em nome da “Aliança Sem Limites” com a Rússia. Para os chineses é preferível, nesse momento, desenvolver sua economia, evitando maiores conflitos, fortalecer suas forças armadas e estreitar laços comerciais e diplomáticos com países não tão alinhados aos EUA.

 

Por tudo isso, torcemos para que as pressões de aliados, em ambos os lados, atuem de forma contundente no sentido de abrir canais para a negociação entre Rússia e Ucrânia. Não parece provável serem restabelecidas as fronteiras ucranianas como antes do conflito. Mas parece possível, para os ucranianos, perder menos território do que se imaginava, considerando as dificuldades enfrentadas pela Rússia para manter seu gigantesco esforço de guerra.

 

Comentários

  1. Seu artigo me deixou ainda mais fascinado pelo assunto!! Muitas informações eu desconhecia. Obrigado por compartilhar conosco. Ansioso para o próximo artigo. Parabéns!!

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    1. Que bom que gostou, amigo! É sempre uma satisfação receber o feedback de vocês. Muito obrigado! Seja sempre bem-vindo.

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  2. Parabéns, amor! Sua dedicação à elaboração desse artigo, com a riqueza de detalhes e de forma tão bem pesquisada, merece meu voto de louvor! Excelente!

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    1. Muitíssimo obrigado pelo apoio de sempre e pela dedicação ajudando-me com a revisão do texto, amor. Você é demais!

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