CRISE HISTÓRICA DAS COREIAS EM 6 PONTOS
1) PERÍODO MONÁRQUICO DA
PENÍNSULA COREANA
A região da Península Coreana foi
governada por três principais reinos de 57 a.C. a 668 d.C.: Baekje, Silla e
Koguryo. Seus domínios, além de ocuparem toda a península, também continham a
maior parte da Manchúria, região que, atualmente, compreende território chinês
e russo. Durante o conflituoso período do Três Reinos (chamado de “Samguk”),
coexistiram cerca de 78 Estados tribais na região mais ao sul da península.
Após séculos de conflitos no
período dos Três Reinos, toda península foi unificada como o Reino Silla, que,
por sua vez, foi sucedido pelo Reino Goryeo, em 935, nome que deu origem à denominação
de “Coreia”.
Já em 1388, o Reino Goryeo caiu
diante de uma insurreição liderada pelo General Yi Seong-gye, que estabeleceu o
Reino Joseon. Esta que ficou conhecida como a última e mais longa dinastia da
história da Coreia, durando cerca de quinhentos anos, até 1897, com a proclamação
do Império Coreano (1897 a 1910).
2) PERÍODO DE COLONIZAÇÃO JAPONESA NA COREIA
Após ter derrotado a China, na
Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894 a 1895), e ter sobrepujado a Rússia czarista,
na Guerra Russo-Japonesa (1904 a 1905), o Japão ascendeu como a potência
dominante da Ásia Oriental. E, como tal, pôs em prática, rapidamente, seu plano
de consolidação hegemônica na região, estabelecendo na Península Coreana seu
próximo alvo estratégico geopolítico. Eis que, em 1905, japoneses e coreanos
celebraram o Tratado Japão-Coreia, por meio do qual a Coreia tornou-se
formalmente um protetorado do Japão.
A Península Coreana tinha grande
importância estratégica para os japoneses, dada a proximidade com seu território.
Os japoneses precisavam garantir que a Coreia não caísse em mãos inimigas, o
que tornaria a península o local ideal para instalação de bases militares aptas
a tacar o território japonês diretamente.
O status de protetorado japonês
da Coreia não passou de uma efêmera condição, que logo deu lugar à governança
indireta japonesa sobre a Coreia, através da figura do Residente Geral Japonês da
Coreia.
Já em 1907, os japoneses forçaram
o Imperador coreano Gojong a abdicar do cargo, momento a partir do qual o Japão
passou a colonizar efetivamente a Coreia. Esse novo status foi formalizado pelo
novo Tratado de Anexação Japão-Coreia de 1910. O território coreano foi então
administrado pelo Governador-Geral de Chōsen, com sede em Keijō (atual Seul),
até o final do período colonial.
A colonização coreana foi marcada
por intensa opressão japonesa, que implementou a chamada “política de
japonização forçada”, havendo registros, inclusive, de proibição do uso da
língua e de nomes coreanos, que eram substituídos pela língua e nomes
japoneses, uso de mão-de-obra coreana para trabalhos forçados e até abusos
cometidos contra mulheres coreanas. Estima-se que mais de 5,4 milhões de
coreanos foram obrigados a apoiar o esforço de guerra japonês na Ásia e no
Pacífico a partir de 1939.
A colonização da Coreia pelos
japoneses durou mais de 38 anos, até o final da Segunda Guerra Mundial, marcada
pela rendição da Alemanha nazista aos Países Aliados, em 8 de maio de 1945, encerrando
os conflitos no continente europeu, e pela rendição do Japão, em 2 de setembro
de 1945, que pôs termo à Guerra do Pacífico.
Esse episódio sombrio da
colonização japonesa na Coreia gera ressentimentos que ecoam nas relações entre
a República da Coreia (Coreia do Sul) e o Japão até os dias atuais, embora sejam
grandes parceiros comerciais e tenham celebrado, desde 1965, o Tratado sobre as
Relações Básicas entre o Japão e a República da Coreia.
3) ATAQUE NUCLEAR NA GUERRA DO
PACÍFICO
O fim da Guerra do Pacífico sacramentou,
regionalmente, o desfecho do seu conflito macro, consubstanciado na Segunda
Guerra Mundial. Mas, por outro lado, inaugurou, outrossim, uma nova era,
marcada pela corrida armamentista entre os Estados Unidos da América (EUA) e a
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), potencializada, nas décadas
que se seguiram, pela conjuntura da Guerra Fria.
A derrota dos japoneses no
Pacífico não foi um fato histórico de natureza meramente militar, mas sim um
episódio quase apoteótico que alçou os EUA a uma condição de superpotência nunca vista na história. Isso porque os norte-americanos revelaram ao
mundo o poder avassalador das armas nucleares em combate.
O governo do Presidente
norte-americano Harry S. Truman vinha sofrendo com a pressão popular doméstica para
acabar com a Guerra do Pacífico, especialmente depois das sangrentas batalhas
travadas contra os japoneses para ocupar as ilhas de Iwo Jima (19 de fevereiro a
26 de março de 1945) e de Okinawa (1º de abril a 22 de junho de 1945), que
ocasionaram a morte de 6.821 e 12.000 soldados norte-americanos respectivamente.
Já, do lado japonês, as mortes
chegaram a cerca de 21.000 soldados na batalha de Iwo Jima e 110.000 soldados
na batalha de Okinawa, a qual também causou a morte de mais de 130.000 civis
japoneses. Destaca-se que muitos soldados japoneses preferiram cometer suicídio,
a serem capturados.
Como visto, embora a guerra fosse
ainda pior para os japoneses, o impressionante ímpeto guerreiro daquela nação
tornava caro demais, para os norte-americanos, cada batalha vencida pelos EUA,
sobretudo após a implementação da estratégia suicida pelos pilotos de caça
japoneses. Estima-se que mais de 4.000 pilotos chamados “kamikazes”,
literalmente, sacrificaram a própria vida, arremessando seus aviões contra as
embarcações norte-americanas, para infligir o máximo de danos e baixas humanas.
Tratava-se, pois, de uma forma de ataque sem defesa eficiente dos norte-americanos.
Dessa forma, para forçar a
rendição do Império do Japão e acabar de vez com a Guerra do Pacífico, sem
precisar incursionar forças dos EUA às principais ilhas do arquipélago japonês
(Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku), o que poderia custar a morte de milhares
de soldados norte-americanos, o Presidente Truman decidiu pela utilização da
então recém-criada bomba de fissão nuclear. Uma decisão extremamente
controvertida, vale dizer, pois não havia sombra de dúvida de que um ataque
nuclear ao território do Japão mataria milhares de civis japoneses inocentes.
Eis que, em 6 de agosto de 1945, pela
primeira vez na história uma arma nuclear foi utilizada em combate. A bomba
nuclear, chamada “Little Boy”, foi lançada sobre a Cidade de Hiroshima,
às 8h15 da manhã (hora local), por uma aeronave modelo B-29 Superfortress, de
codinome “Enola Gay”, pilotado pelo então Tenente-coronel Paul Tibbets.
Aquele dispositivo (conforme figura acima) possuía um
núcleo à base do material físsil urânio 235, com a potência estimada de 15 a 20
quilotons de TNT. A explosão causou uma onda de calor superior a 4.000° C, em
um raio de cerca de 4,5 km. Incêndios duraram três dias, alastrando-se
rapidamente pelo que sobrou da cidade, consumindo com facilidade as edificações
mormente construídas à base de madeira. Morreram em torno de 70 a 100 mil
pessoas, em sua maioria civis, no dia da explosão e cerca de 50% dos
sobreviventes, localizados em até 4,5 km2 do epicentro da detonação,
vieram a óbito posteriormente, com doenças desencadeadas por exposição à
radiação.
Ainda assim, os japoneses não se
renderam, provavelmente por acreditarem que os norte-americanos não possuíssem
outra arma daquela natureza. Mas os militares da terra do sol nascente estavam
errados.
Apenas três dias depois, em 9 de
agosto de 1945, pela segunda e última vez na história uma arma nuclear foi
utilizada em combate. A bomba nuclear, chamada “Fat Man”, foi lançada
sobre a Cidade de Nagasaki, às 11:02 da manhã (horário local), por uma aeronave
modelo B-29 Superfortress, codinome “Bockscar”, sob o comando do Major Charles
W. Sweeney.
Ressalta-se que alvo prioritário
dos EUA era, na verdade, a Cidade de Kokura, cuja topografia era menos
acidentada, potencializando o alcance explosivo da bomba. Todavia, como o alvo
principal (Kokura) apresentara condição climática ruim naquela manhã, o
comandante da aeronave norte-americana optou pelo alvo secundário, lançando a
bomba sobre Nagazaki.
Esse explosivo (conforme figura acima) era diferente do
anterior, com material físsil do núcleo à base de plutônio 239, além de um
mecanismo de detonação por implosão mais complexo, com potência aproximada de
21 quilotons de TNT.
A explosão foi mais forte que a
do artefato lançado sobre Hiroshima, mas a topografia de Nagasaki, dividida
entre dois vales, limitou seu potencial destrutivo. Ainda assim, calcula-se que
entre 28 mil e 49 mil pessoas tenham morrido no dia da explosão, em sua maioria
civis, e cerca de 50% dos sobreviventes, localizados em até 4,5 km2
do epicentro da detonação, tenha morrido por complicações desencadeadas pela
radiação.
Eis que, diante de tamanha
carnificina, os japoneses então reconheceram que não havia outra opção, senão sua
completa rendição incondicional.
O Japão então teve seu território
ocupado, pela primeira vez na história, por forças estrangeiras. A ocupação dos
Países Aliados foi comandada pelo General do Exército dos EUA Douglas
MacArthur, com o firme propósito de desmilitarizar aquela nação, tornando-a um
Estado pacifista. Para tanto, foi abolida a Constituição Imperial Meiji e
imposta pelos EUA a Constituição do Japão de 1947.
Com isso, o Império Colonizador
do Japão foi dissolvido e territórios, outrora anexados à força pelos
japoneses, foram libertados, tais como: Coreia, Manchúria, Taiwan, Karafuto e
Kwantung. O Japão foi redimensionado aos territórios tradicionalmente inclusos
em sua esfera cultural pré-1895, sendo eles: as quatro ilhas principais
(Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku), as Ilhas Ryukyu e as Ilhas Nanpō.
Finalmente, estima-se que tenham
morrido na Guerra do Pacífico cerca de 3,36 milhões de chineses, 161.000 norte-americanos,
82.000 britânicos, 17.501 australianos, 22.526 soviéticos, 9.400 holandeses,
578 neozelandeses e 2,13 milhões de japoneses. Ainda assim, tamanha atrocidade
não foi o suficiente para manter a paz e a prosperidade entre as nações, como
veremos a seguir.
4) NOVA ORDEM MUNDIAL BIPOLAR
O desfecho da Guerra do Pacífico,
como episódio final da Segunda Guerra, revelou a notória fragilidade de uma
efêmera coalizão por conveniência dos Países Aliados (liderados por EUA, Reino
Unido e URSS) contra as forças do Eixo (Alemanha Nazista, Império do Japão e
Itália). Os Aliados vencedores, agora, teriam que lidar com suas diferenças
essenciais ideológicas e, aparentemente, insuperáveis.
Não demorou para que as potências
ocidentais percebessem que a, cada vez mais, poderosa URSS representava uma
grande ameaça, no contexto da nova ordem mundial que se estabelecera. Afinal,
àquela época, os soviéticos já possuíam o maior território e a maior força
armada em números absolutos do mundo.
Washington sabia que não tardaria
para que os soviéticos desenvolvessem seu próprio arsenal nuclear e que, doravante,
a hegemonia global seria protagonizada sob uma nova perspectiva de
bipolaridade. Somado a isso, havia a certeza de que a ascensão de uma nova
potência nuclear mudaria por completo as “regras do jogo” geopolítico. Afinal,
nascia, também naquele contexto, a compreensão do conceito que posteriormente
se convencionou chamar de “destruição mútua assegurada”.
Isto é, potências nucleares não
devem atacar, diretamente, outras potências nucleares, sob pena de sofrer um
contra-ataque direto, apto a erradicar sua existência do mapa. Não mais se
poderia vencer por completo, em uma batalha convencional, um inimigo
nuclearizado.
Era preciso encontrar outras
formas de vencer, expandindo sua zona de influência e contendo a do adversário,
ainda assim evitando o confronto direto a todo custo. Com isso, o jogo de espionagem e
sabotagem, pautado em inteligência e contrainteligência, ascendeu a um novo
patamar de relevância geopolítica para as potências nucleares.
Eis o ponto nodal lógico das
guerras por procuração, no contexto da chamada “Guerra Fria”. Alcunha essa que
recebeu aquele conflito, justamente, em razão de não haver combate direto entre
as principais potências envolvidas (EUA e URSS), mas sim francos conflitos entre
outras nações, ao redor do globo, sob a influência de norte-americanos e de
soviéticos. Ou seja, a guerra era “fria” entre as potências nucleares, no
entanto era sobremaneira “quente” entre os seus Estados-fantoches.
Sob essa nova perspectiva, os
norte-americanos precisavam correr contra o tempo para conter a zona de
influência soviética, principalmente, na Ásia e no Pacífico. Uma vez que havia a
preocupação de que o Japão, ora devastado pela guerra, fosse facilmente anexado
à força pelos comunistas.
Nessa toada, os EUA mantiveram
sua ocupação no Japão até 1951, no entanto, também preservaram a figura do Imperador
Japonês, Hirohito, ainda que com poderes limitados pela nova Constituição
japonesa de 1947. Tratava-se de uma decisão estratégica, que permitia uma
transição mais suave, evitando maior instabilidade político-social no Japão
pós-guerra.
Em contrapartida, os soviéticos
também foram pragmáticos ao seu modo, expandindo seu território a proporções
continentais durante a Segunda Guerra, conscientes da condição circunstancial
efêmera de sua aliança com as potências ocidentais. Assim a URSS ocupou, na
Europa, países como Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Tchecoslováquia e Alemanha
Oriental, inclusive, com o comando da parte oriental da Cidade de Berlim. Nos
Bálticos, ocupou Estônia, Letônia e Lituânia. Na Ásia, ocupou áreas da Mongólia,
do norte da China e da porção norte da Península Coreana.
Especificamente no que toca à
Coreia, durante a Conferência de Potsdam, em julho de 1945, meses antes do fim
da Guerra do Pacífico, EUA, Reino Unido e URSS determinaram que o avanço
soviético sobre a Península Coreana deveria se limitar ao Paralelo 38 (linha
imaginária que está 38 graus ao norte da Linha do Equador), demarcação que
divide horizontalmente o território coreano ao meio. Dessarte, enquanto as
tropas de Josef Stalin ocuparam a Coreia pelo norte, as forças norte-americanas
avançaram pelo sul, ambas se encontrando, conforme combinado, na região do Paralelo
38.
Obviamente, essa divisão
arbitrária de uma nação em dois Estados, imposta por militares estrangeiros,
cada um com sua própria política de estado, de governo e ideologia, essencialmente
antagônicas entre si, como são o Capitalismo e o Comunismo, não poderia
produzir outro resultado, senão a guerra entre a Coreia do Norte (República
Popular Democrática da Coreia) e a Coreia do Sul (República da Coreia). Sendo
assim, vejamos a seguir como se deu esse terrível episódio da história.
5) GUERRA DAS COREIAS
Muito embora especialistas da Organização
das Nações Unidas (ONU) tenham redigido, em 1947, um relatório técnico aconselhando
o processo de reunificação democrática das Coreias, nunca houve real intenção
de quaisquer das partes envolvidas em proceder dessa forma. Ambas as Coreias reivindicam
a soberania sobre toda a Península Coreana e, com efeito, acrescentaram
dispositivos nas suas respectivas Constituições nesse sentido.
Além disso, EUA e URSS nunca
estiveram dispostos a arriscar perder influência sobre esse importante
território estratégico, razão pela qual não endossaram a ideia de um processo
de reunificação, que fosse, de fato, democrático – ou seja, que fosse sob o
controle, exclusivamente, da população coreana. Isso porque, eventual
reunificação feita nesses moldes, sem quaisquer interferências estrangeiras,
seria incontrolável e, portanto, imprevisível. Um processo cujo resultado poderia
pender o alinhamento político de toda a Península para qualquer dos blocos, capitalista
ou comunista. Tratava-se, pois, de garantir influência sobre metade do
território, ou arriscar perder tudo.
Em agosto de 1948, na Coreia do
Sul, foi proclamada a República da Coreia, com governo capitalista, capital
sediada na Cidade de Seul, liderada pelo Presidente Syngman Rhee, um coreano
radicado nos EUA, com diplomas de universidades norte-americanas. Seu governo seguiu
à risca a cartilha anticomunista dos EUA e foi marcado pelo extremo
autoritarismo, crescente instabilidade política e oposição pública.
Já em setembro de 1948, na Coreia
do Norte, foi proclamada a República Popular Democrática da Coreia, com governo
comunista, capital sediada na Cidade de Pyongyang, liderado pelo
Primeiro-Ministro Kim Il-sung, um ex-combatente coreano que enfrentou a
colonização japonesa, nos anos 1930 a 1940, avô do atual líder norte-coreano
Kim Jong-um. O governo de Kim Il-sung, que deu origem a Dinastia Kim, foi
marcado por sua natureza totalitarista, pelo culto à personalidade, o controle
rígido sobre a população e a intensa propaganda estatal.
Em 29 de agosto de 1949, apenas
quatro anos depois do primeiro ataque nuclear em combate da história (sobre a
Cidade de Hiroshima), os soviéticos detonaram seu primeiro explosivo nuclear, na
região do Polígono, no Cazaquistão, cujo dispositivo de implosão, chamado RDS-1,
era quase uma réplica da bomba de plutônio norte-americana lançada sobre Nagasaki.
A bomba nuclear soviética foi uma
verdadeira façanha de engenharia, conquistada em função dos recursos e
conhecimentos obtidos com os espólios de guerra da extinta Alemanha Nazista.
Mas também, uma notável proeza de espionagem, traduzida na capacidade de
replicar, tão rapidamente, um projeto extremamente complexo como o da bomba de
plutônio dos EUA. O fato é que esse acontecimento fez alçar a URSS ao status de
potência nuclear, nivelando a balança de poder com os EUA. Tal fato tornou
ainda mais improvável o embate direto entre as duas potências nucleares nos
anos que se seguiram.
Já em 1950, após uma reunião
secreta, a URSS e a China garantiram auxílio direto com armas e equipamentos à
Coreia do Norte para invadir a Coreia do Sul, presumindo que os
norte-americanos não interfeririam no conflito, assim como não interferiram na
Guerra Civil chinesa, que resultou na vitória dos comunistas, em outubro de
1949.
Assim, em 25 de junho de 1950, os
norte-coreanos, ora mais desenvolvidos e mais bem armados, lançaram um brutal
ataque sobre as despreparadas forças sul-coreanas. As forças da Coreia do Norte
contavam com 200 mil soldados, equipados com blindados T-34 soviéticos, mais de
200 peças de artilharia e quase 300 aviões e bombardeiros. Já os sul-coreanos
possuíam uma força de apenas 65 mil soldados, basicamente composta por
policiais, mal equipados e mal preparados.
Em menos de três meses as forças
sul-coreanas foram encurraladas no chamado “Perímetro de Pusan”, uma área ao sudeste
da Coreia do Sul, equivalente a menos de 10% da Península Coreana (conforme figura abaixo). Tudo levava
a crer que os sul-coreanos seriam totalmente subjugados.
A contraofensiva veio, em
setembro de 1950, com uma força combinada de 21 países da ONU, sendo 88% composta
por norte-americanos, muito superior às forças da Coreia do Norte. Sob o
comando do General Douglas MacArthur, um ataque de forças anfíbias, de quase 50
mil soldados, surpreendeu os norte-coreanos na sua retaguarda, pelo porto de
Incheon. O sucesso da operação fez os soldados norte-coreanos recuarem para o
norte, após perder mais de 100 mil soldados.
As forças da ONU avançaram para
além do paralelo 38, invadindo o território da Coreia do Norte. Em resposta, o líder
chinês Mao Tsé-Tung, após longas deliberações junto ao líder soviético Stalin,
decidiu intervir diretamente no conflito, enviando, em 19 de outubro, 200 mil
soldados chineses à Coreia do Norte. Esse contingente aumentou para o
impressionante número de um milhão de soldados chineses nos meses seguintes.
Já em janeiro de 1951, o líder
norte-coreano Kim Il-sung foi destituído pelos chineses do comando das tropas
norte-coreanas, momento a partir do qual a China passou a comandar totalmente as
forças comunistas no conflito. Eis que a ofensiva chinesa trouxe novo
equilíbrio ao conflito, fazendo as tropas da ONU recuarem às proximidades do
Paralelo 38.
Em resposta à ofensiva chinesa, o
General MacArthur recomendou ao Presidente Truman que os EUA atacassem os
chineses com armas nucleares, inclusive, levando o combate para dentro do
território chinês. No entanto, o pleito foi negado por Truman, que temia
eventual retaliação da URSS, agora dispondo das recém-criadas armas nucleares
soviéticas.
Entre janeiro e março de 1951,
instaurou-se uma guerra de atrito com baixas colossais de ambos os lados, sem
grandes progressos de avanço no território dos adversários. Ainda em março de
1951, a capital do sul Seul foi retomada pelos sul-coreanos, totalizando a
quarta vez que aquela cidade, já em ruínas, mudava de mãos durante a guerra.
Também em 1951, Stalin enviou
centenas de aviões para os chineses, inclusive, com alguns pilotos soviéticos
atuando diretamente no conflito. Isso implicava sérios riscos daquele conflito
desencadear o mal supremo: o embate direto das duas únicas potências nucleares
da época (EUA e URSS).
Em 11 de abril de 1951, o General
MacArthur foi destituído do comando militar na Coreia pelo Presidente Truman. A
decisão foi baseada, principalmente, na determinação incontida do General em
estender a guerra para o interior da China, além de criticar, publicamente, a
hesitação do presidente em usar armas nucleares contra os chineses.
O Presidente Truman havia
percebido que era o momento de desescalar o conflito, enquanto era possível
manter a Coreia do Sul sob a zona de influência norte-americana e antes de
extrapolar o limite de tolerância dos soviéticos para adentrar oficialmente ao
conflito, o que significaria o prelúdio da terceira guerra mundial.
A Guerra das Coreias se arrastou
por três anos (1950 a 1953) até que, em 27 de julho de 1953, um armistício foi
assinado. Foi criada uma zona desmilitarizada, com cerca de 200 quilômetros de
comprimento e mais de 4 quilômetros de largura, que corta a península de costa
a costa. A paz definitiva entre o norte e o sul nunca foi assinada. Isso
significa dizer que, oficialmente, o estado de guerra ainda existe.
De acordo com os registros
históricos, aproximadamente 2 a 3 milhões de pessoas perderam a vida durante o conflito,
sendo a maioria dessas vítimas composta por civis coreanos. A matança se
encerrou por décadas com o armistício, mas a relação entre os países ainda é
extremamente preocupante, como se verifica a seguir.
6) SITUAÇÃO ATUAL DAS COREIAS
Embora a Coreia do Norte, nos
primórdios de sua fundação, fosse mais desenvolvida e industrializada do que a
Coreia do Sul, essa realidade se alterou dramaticamente nos últimos 76 anos.
Enquanto a Coreia do Norte possui
uma população de cerca de 25.887.000 habitantes, a Coreia do Sul tem 51.305.000
habitantes (quase o dobro).
O PIB da Coreia do Norte, em 2023,
foi de aproximadamente US$ 29,5 bilhões, enquanto o PIB da Coreia do Sul, no
mesmo período, foi de cerca de US$ 429,2 bilhões (quase 14,6 vezes o PIB dos norte-coreanos).
Enquanto a Coreia do Norte é um
dos países mais fechados do mundo, a Coreia do Sul, em 2022, ocupou o sexto
lugar em exportação de bens no mundo, também figurando como o oitavo maior
importador mundial. O comércio representa, hoje, cerca de 97% do PIB da Coreia
do Sul.
No que toca às forças armadas, a
Coreia do Norte conta com cerca de 1.280.000 soldados na ativa (dados de 2019)
e aproximadamente 600.000 reservistas (total de cerca de 1.880.000). Já as
forças armadas da Coreia do Sul contam com cerca de 653.000 soldados em serviço
ativo (dados de 2010) e 3.200.000 na reserva (total de cerca de 3.853.000, mais
que o dobro).
No geral, as forças armadas
norte-coreanas conseguem equilibrar a balança com os sul-coreanos em termos de
números absolutos de equipamentos, com destaque para seu acervo gigantesco de
artilharia e de seu moderno arsenal de mísseis, desenvolvidos no âmbito da
aliança militar pactuada entre Coreia do Norte e Rússia – que é um dos maiores
expoentes tecnológicos do ramo.
Certamente, o maior trunfo
militar da Coreia do Norte consiste no fato de ser ela uma potência nuclear desde
2006. Em contrapartida, como a Coreia do Sul é signatária do Tratado de Não
Proliferação de Armas Nucleares (TNP), os sul-coreanos não desenvolveram armas
nucleares até o momento.
Os sul-coreanos levam vantagem no
quesito tecnologia, sendo sua força aérea e naval mais modernas, com destaque
para o recebimento de equipamentos de última geração norte-americanos, graças à
aliança militar pactuada entre a Coreia do Sul e os EUA.
Atualmente, ambas as nações têm
protagonizado hostilidades. Os sul-coreanos têm enviado balões em direção à
Coreia do Norte, contendo souvenirs típicos de sua cultura mundialmente consagrada,
visando desestabilizar politicamente o governo opressor do norte com a perda do
apoio popular. Os norte-coreanos, por sua vez, enviam balões na direção do sul,
contendo esterco e lixo, além de, vez por outra, realizar disparos de
artilharia em uma região de fronteira marítima com a Coreia do Sul.
As tensões entre as nações têm
escalado em ritmo acelerado nos últimos meses, notadamente, após o
pronunciamento impactante do líder norte-coreano Kim Jong-um, em 9 de setembro
de 2024, durante um evento comemorativo do aniversário de fundação da Coreia do
Norte. Ele afirmou que está implementando uma política de construção de força
nuclear, visando o aumento exponencial no número de armas nucleares. Enfatizou
também a necessidade de manter uma presença militar forte para enfrentar as
“ameaças” impostas pelos EUA e seus aliados.
Trata-se, portanto, de uma afirmação
muito significativa, uma vez que a Coreia do Norte, provavelmente, já dispõe de
um arsenal com cerca de 20 a 115 ogivas nucleares (o 9º maior do mundo).
Considerando o último teste nuclear norte-coreano, em 2017, calcula-se que a
capacidade das bombas norte-coreanas gira em torno de 100 a 370 quilotons de
TNT. A título de esclarecimento, vale ressaltar que um explosivo com capacidade
de 100 quilotons de TNT é aproximadamente seis vezes mais poderoso do que a
bomba nuclear lançada sobre Hiroshima em 1945.
Especialistas afirmam que o
acervo nuclear de Kim Jong-um já é diversificado. Havendo bombas com tecnologia
de material físsil à base de urânio e de plutônio. Além disso, embora não haja
confirmação oficial, há indícios de que os norte-coreanos estejam envidando
esforços no sentido de desenvolver também bombas termonucleares.
As bombas termonucleares, também
chamadas de bombas de hidrogênio, são muito mais poderosas do que as bombas
atômicas convencionais, pois combinam a tecnologia da fissão nuclear (tais como
as bombas de urânio e de plutônio) com a fusão nuclear do hidrogênio. É uma
tecnologia extremamente mais complexa. A título de ilustração, a bomba de
hidrogênio “Ivy Mike”, testada pelos EUA em 1952, é cerca de 3 mil vezes
mais potente que a bomba “Little Boy”, lançada sobre Hiroshima, em 1945.
Esses são dados, verdadeiramente, sombrios!
Em resposta à retórica nuclear de
Kim Jong-um, já há discussões na Coreia do Sul no sentido de repensar sua
participação como signatário do TNP, bem como considerar a hipótese de basear
armas nucleares norte-americanas em seu território, para contrapor o arsenal
norte-coreano.
Diante disso, o prognóstico das
relações entre as coreias não parece ser bom no curto prazo. A tendência é que
vejamos maior escalada das tensões nos próximos dias, principalmente,
desencadeada pela retórica agressiva do líder norte-coreano.
No entanto, a eventual vitória de
Donald Trump na eleição de novembro, na disputa pela Casa Branca, pode mudar,
radicalmente, a política norte-americana de enfrentamento do bloco oriental,
liderado por China, Rússia e Coreia do Norte, possivelmente, amenizando as
hostilidades entre as coreias, dada a tendência histórica tipicamente menos
beligerante dos governos republicanos em Washington.
Nesse compasso, Trump tem
afirmado que os EUA precisam repensar seus gastos com o apoio militar aos seus
parceiros estratégicos, principalmente na Guerra da Ucrânia e na ilha de
Taiwan. O que nos faz supor que o candidato, se eleito, adote postura similar
no que concerne à Coreia do Sul, fazendo assim, quem sabe, os norte-coreanos se
sentirem menos ameaçados e, portanto, vindo a se comportar de forma menos hostil.




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