CRISE HISTÓRICA DAS COREIAS EM 6 PONTOS

 



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1) PERÍODO MONÁRQUICO DA PENÍNSULA COREANA

 

A região da Península Coreana foi governada por três principais reinos de 57 a.C. a 668 d.C.: Baekje, Silla e Koguryo. Seus domínios, além de ocuparem toda a península, também continham a maior parte da Manchúria, região que, atualmente, compreende território chinês e russo. Durante o conflituoso período do Três Reinos (chamado de “Samguk”), coexistiram cerca de 78 Estados tribais na região mais ao sul da península.

 

Após séculos de conflitos no período dos Três Reinos, toda península foi unificada como o Reino Silla, que, por sua vez, foi sucedido pelo Reino Goryeo, em 935, nome que deu origem à denominação de “Coreia”.

 

Já em 1388, o Reino Goryeo caiu diante de uma insurreição liderada pelo General Yi Seong-gye, que estabeleceu o Reino Joseon. Esta que ficou conhecida como a última e mais longa dinastia da história da Coreia, durando cerca de quinhentos anos, até 1897, com a proclamação do Império Coreano (1897 a 1910).

 

2) PERÍODO DE COLONIZAÇÃO JAPONESA NA COREIA

 

Após ter derrotado a China, na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894 a 1895), e ter sobrepujado a Rússia czarista, na Guerra Russo-Japonesa (1904 a 1905), o Japão ascendeu como a potência dominante da Ásia Oriental. E, como tal, pôs em prática, rapidamente, seu plano de consolidação hegemônica na região, estabelecendo na Península Coreana seu próximo alvo estratégico geopolítico. Eis que, em 1905, japoneses e coreanos celebraram o Tratado Japão-Coreia, por meio do qual a Coreia tornou-se formalmente um protetorado do Japão.

 

A Península Coreana tinha grande importância estratégica para os japoneses, dada a proximidade com seu território. Os japoneses precisavam garantir que a Coreia não caísse em mãos inimigas, o que tornaria a península o local ideal para instalação de bases militares aptas a tacar o território japonês diretamente.


O status de protetorado japonês da Coreia não passou de uma efêmera condição, que logo deu lugar à governança indireta japonesa sobre a Coreia, através da figura do Residente Geral Japonês da Coreia.

 

Já em 1907, os japoneses forçaram o Imperador coreano Gojong a abdicar do cargo, momento a partir do qual o Japão passou a colonizar efetivamente a Coreia. Esse novo status foi formalizado pelo novo Tratado de Anexação Japão-Coreia de 1910. O território coreano foi então administrado pelo Governador-Geral de Chōsen, com sede em Keijō (atual Seul), até o final do período colonial.

 

A colonização coreana foi marcada por intensa opressão japonesa, que implementou a chamada “política de japonização forçada”, havendo registros, inclusive, de proibição do uso da língua e de nomes coreanos, que eram substituídos pela língua e nomes japoneses, uso de mão-de-obra coreana para trabalhos forçados e até abusos cometidos contra mulheres coreanas. Estima-se que mais de 5,4 milhões de coreanos foram obrigados a apoiar o esforço de guerra japonês na Ásia e no Pacífico a partir de 1939.

 

A colonização da Coreia pelos japoneses durou mais de 38 anos, até o final da Segunda Guerra Mundial, marcada pela rendição da Alemanha nazista aos Países Aliados, em 8 de maio de 1945, encerrando os conflitos no continente europeu, e pela rendição do Japão, em 2 de setembro de 1945, que pôs termo à Guerra do Pacífico.

 

Esse episódio sombrio da colonização japonesa na Coreia gera ressentimentos que ecoam nas relações entre a República da Coreia (Coreia do Sul) e o Japão até os dias atuais, embora sejam grandes parceiros comerciais e tenham celebrado, desde 1965, o Tratado sobre as Relações Básicas entre o Japão e a República da Coreia.

 

3) ATAQUE NUCLEAR NA GUERRA DO PACÍFICO

 

O fim da Guerra do Pacífico sacramentou, regionalmente, o desfecho do seu conflito macro, consubstanciado na Segunda Guerra Mundial. Mas, por outro lado, inaugurou, outrossim, uma nova era, marcada pela corrida armamentista entre os Estados Unidos da América (EUA) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), potencializada, nas décadas que se seguiram, pela conjuntura da Guerra Fria.

 

A derrota dos japoneses no Pacífico não foi um fato histórico de natureza meramente militar, mas sim um episódio quase apoteótico que alçou os EUA a uma condição de superpotência nunca vista na história. Isso porque os norte-americanos revelaram ao mundo o poder avassalador das armas nucleares em combate.

 

O governo do Presidente norte-americano Harry S. Truman vinha sofrendo com a pressão popular doméstica para acabar com a Guerra do Pacífico, especialmente depois das sangrentas batalhas travadas contra os japoneses para ocupar as ilhas de Iwo Jima (19 de fevereiro a 26 de março de 1945) e de Okinawa (1º de abril a 22 de junho de 1945), que ocasionaram a morte de 6.821 e 12.000 soldados norte-americanos respectivamente.

 

Já, do lado japonês, as mortes chegaram a cerca de 21.000 soldados na batalha de Iwo Jima e 110.000 soldados na batalha de Okinawa, a qual também causou a morte de mais de 130.000 civis japoneses. Destaca-se que muitos soldados japoneses preferiram cometer suicídio, a serem capturados.

 

Como visto, embora a guerra fosse ainda pior para os japoneses, o impressionante ímpeto guerreiro daquela nação tornava caro demais, para os norte-americanos, cada batalha vencida pelos EUA, sobretudo após a implementação da estratégia suicida pelos pilotos de caça japoneses. Estima-se que mais de 4.000 pilotos chamados “kamikazes”, literalmente, sacrificaram a própria vida, arremessando seus aviões contra as embarcações norte-americanas, para infligir o máximo de danos e baixas humanas. Tratava-se, pois, de uma forma de ataque sem defesa eficiente dos norte-americanos.

 

Dessa forma, para forçar a rendição do Império do Japão e acabar de vez com a Guerra do Pacífico, sem precisar incursionar forças dos EUA às principais ilhas do arquipélago japonês (Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku), o que poderia custar a morte de milhares de soldados norte-americanos, o Presidente Truman decidiu pela utilização da então recém-criada bomba de fissão nuclear. Uma decisão extremamente controvertida, vale dizer, pois não havia sombra de dúvida de que um ataque nuclear ao território do Japão mataria milhares de civis japoneses inocentes.

 

Eis que, em 6 de agosto de 1945, pela primeira vez na história uma arma nuclear foi utilizada em combate. A bomba nuclear, chamada “Little Boy”, foi lançada sobre a Cidade de Hiroshima, às 8h15 da manhã (hora local), por uma aeronave modelo B-29 Superfortress, de codinome “Enola Gay”, pilotado pelo então Tenente-coronel Paul Tibbets.

 


Aquele dispositivo (conforme figura acima) possuía um núcleo à base do material físsil urânio 235, com a potência estimada de 15 a 20 quilotons de TNT. A explosão causou uma onda de calor superior a 4.000° C, em um raio de cerca de 4,5 km. Incêndios duraram três dias, alastrando-se rapidamente pelo que sobrou da cidade, consumindo com facilidade as edificações mormente construídas à base de madeira. Morreram em torno de 70 a 100 mil pessoas, em sua maioria civis, no dia da explosão e cerca de 50% dos sobreviventes, localizados em até 4,5 km2 do epicentro da detonação, vieram a óbito posteriormente, com doenças desencadeadas por exposição à radiação.

 

Ainda assim, os japoneses não se renderam, provavelmente por acreditarem que os norte-americanos não possuíssem outra arma daquela natureza. Mas os militares da terra do sol nascente estavam errados.

 

Apenas três dias depois, em 9 de agosto de 1945, pela segunda e última vez na história uma arma nuclear foi utilizada em combate. A bomba nuclear, chamada “Fat Man”, foi lançada sobre a Cidade de Nagasaki, às 11:02 da manhã (horário local), por uma aeronave modelo B-29 Superfortress, codinome “Bockscar”, sob o comando do Major Charles W. Sweeney.

 

Ressalta-se que alvo prioritário dos EUA era, na verdade, a Cidade de Kokura, cuja topografia era menos acidentada, potencializando o alcance explosivo da bomba. Todavia, como o alvo principal (Kokura) apresentara condição climática ruim naquela manhã, o comandante da aeronave norte-americana optou pelo alvo secundário, lançando a bomba sobre Nagazaki.

 



Esse explosivo (conforme figura acima) era diferente do anterior, com material físsil do núcleo à base de plutônio 239, além de um mecanismo de detonação por implosão mais complexo, com potência aproximada de 21 quilotons de TNT.

 

A explosão foi mais forte que a do artefato lançado sobre Hiroshima, mas a topografia de Nagasaki, dividida entre dois vales, limitou seu potencial destrutivo. Ainda assim, calcula-se que entre 28 mil e 49 mil pessoas tenham morrido no dia da explosão, em sua maioria civis, e cerca de 50% dos sobreviventes, localizados em até 4,5 km2 do epicentro da detonação, tenha morrido por complicações desencadeadas pela radiação.

 

Eis que, diante de tamanha carnificina, os japoneses então reconheceram que não havia outra opção, senão sua completa rendição incondicional.

 

O Japão então teve seu território ocupado, pela primeira vez na história, por forças estrangeiras. A ocupação dos Países Aliados foi comandada pelo General do Exército dos EUA Douglas MacArthur, com o firme propósito de desmilitarizar aquela nação, tornando-a um Estado pacifista. Para tanto, foi abolida a Constituição Imperial Meiji e imposta pelos EUA a Constituição do Japão de 1947.

 

Com isso, o Império Colonizador do Japão foi dissolvido e territórios, outrora anexados à força pelos japoneses, foram libertados, tais como: Coreia, Manchúria, Taiwan, Karafuto e Kwantung. O Japão foi redimensionado aos territórios tradicionalmente inclusos em sua esfera cultural pré-1895, sendo eles: as quatro ilhas principais (Honshu, Hokkaido, Kyushu e Shikoku), as Ilhas Ryukyu e as Ilhas Nanpō.

 

Finalmente, estima-se que tenham morrido na Guerra do Pacífico cerca de 3,36 milhões de chineses, 161.000 norte-americanos, 82.000 britânicos, 17.501 australianos, 22.526 soviéticos, 9.400 holandeses, 578 neozelandeses e 2,13 milhões de japoneses. Ainda assim, tamanha atrocidade não foi o suficiente para manter a paz e a prosperidade entre as nações, como veremos a seguir.

 

4) NOVA ORDEM MUNDIAL BIPOLAR

 

O desfecho da Guerra do Pacífico, como episódio final da Segunda Guerra, revelou a notória fragilidade de uma efêmera coalizão por conveniência dos Países Aliados (liderados por EUA, Reino Unido e URSS) contra as forças do Eixo (Alemanha Nazista, Império do Japão e Itália). Os Aliados vencedores, agora, teriam que lidar com suas diferenças essenciais ideológicas e, aparentemente, insuperáveis.

 

Não demorou para que as potências ocidentais percebessem que a, cada vez mais, poderosa URSS representava uma grande ameaça, no contexto da nova ordem mundial que se estabelecera. Afinal, àquela época, os soviéticos já possuíam o maior território e a maior força armada em números absolutos do mundo.

 

Washington sabia que não tardaria para que os soviéticos desenvolvessem seu próprio arsenal nuclear e que, doravante, a hegemonia global seria protagonizada sob uma nova perspectiva de bipolaridade. Somado a isso, havia a certeza de que a ascensão de uma nova potência nuclear mudaria por completo as “regras do jogo” geopolítico. Afinal, nascia, também naquele contexto, a compreensão do conceito que posteriormente se convencionou chamar de “destruição mútua assegurada”.

 

Isto é, potências nucleares não devem atacar, diretamente, outras potências nucleares, sob pena de sofrer um contra-ataque direto, apto a erradicar sua existência do mapa. Não mais se poderia vencer por completo, em uma batalha convencional, um inimigo nuclearizado.

 

Era preciso encontrar outras formas de vencer, expandindo sua zona de influência e contendo a do adversário, ainda assim evitando o confronto direto a todo custo. Com isso, o jogo de espionagem e sabotagem, pautado em inteligência e contrainteligência, ascendeu a um novo patamar de relevância geopolítica para as potências nucleares.

 

Eis o ponto nodal lógico das guerras por procuração, no contexto da chamada “Guerra Fria”. Alcunha essa que recebeu aquele conflito, justamente, em razão de não haver combate direto entre as principais potências envolvidas (EUA e URSS), mas sim francos conflitos entre outras nações, ao redor do globo, sob a influência de norte-americanos e de soviéticos. Ou seja, a guerra era “fria” entre as potências nucleares, no entanto era sobremaneira “quente” entre os seus Estados-fantoches.

 

Sob essa nova perspectiva, os norte-americanos precisavam correr contra o tempo para conter a zona de influência soviética, principalmente, na Ásia e no Pacífico. Uma vez que havia a preocupação de que o Japão, ora devastado pela guerra, fosse facilmente anexado à força pelos comunistas.

 

Nessa toada, os EUA mantiveram sua ocupação no Japão até 1951, no entanto, também preservaram a figura do Imperador Japonês, Hirohito, ainda que com poderes limitados pela nova Constituição japonesa de 1947. Tratava-se de uma decisão estratégica, que permitia uma transição mais suave, evitando maior instabilidade político-social no Japão pós-guerra.

 

Em contrapartida, os soviéticos também foram pragmáticos ao seu modo, expandindo seu território a proporções continentais durante a Segunda Guerra, conscientes da condição circunstancial efêmera de sua aliança com as potências ocidentais. Assim a URSS ocupou, na Europa, países como Polônia, Hungria, Romênia, Bulgária, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental, inclusive, com o comando da parte oriental da Cidade de Berlim. Nos Bálticos, ocupou Estônia, Letônia e Lituânia. Na Ásia, ocupou áreas da Mongólia, do norte da China e da porção norte da Península Coreana.

 

Especificamente no que toca à Coreia, durante a Conferência de Potsdam, em julho de 1945, meses antes do fim da Guerra do Pacífico, EUA, Reino Unido e URSS determinaram que o avanço soviético sobre a Península Coreana deveria se limitar ao Paralelo 38 (linha imaginária que está 38 graus ao norte da Linha do Equador), demarcação que divide horizontalmente o território coreano ao meio. Dessarte, enquanto as tropas de Josef Stalin ocuparam a Coreia pelo norte, as forças norte-americanas avançaram pelo sul, ambas se encontrando, conforme combinado, na região do Paralelo 38.

 

Obviamente, essa divisão arbitrária de uma nação em dois Estados, imposta por militares estrangeiros, cada um com sua própria política de estado, de governo e ideologia, essencialmente antagônicas entre si, como são o Capitalismo e o Comunismo, não poderia produzir outro resultado, senão a guerra entre a Coreia do Norte (República Popular Democrática da Coreia) e a Coreia do Sul (República da Coreia). Sendo assim, vejamos a seguir como se deu esse terrível episódio da história.

 

5) GUERRA DAS COREIAS

 

Muito embora especialistas da Organização das Nações Unidas (ONU) tenham redigido, em 1947, um relatório técnico aconselhando o processo de reunificação democrática das Coreias, nunca houve real intenção de quaisquer das partes envolvidas em proceder dessa forma. Ambas as Coreias reivindicam a soberania sobre toda a Península Coreana e, com efeito, acrescentaram dispositivos nas suas respectivas Constituições nesse sentido.

 

Além disso, EUA e URSS nunca estiveram dispostos a arriscar perder influência sobre esse importante território estratégico, razão pela qual não endossaram a ideia de um processo de reunificação, que fosse, de fato, democrático – ou seja, que fosse sob o controle, exclusivamente, da população coreana. Isso porque, eventual reunificação feita nesses moldes, sem quaisquer interferências estrangeiras, seria incontrolável e, portanto, imprevisível. Um processo cujo resultado poderia pender o alinhamento político de toda a Península para qualquer dos blocos, capitalista ou comunista. Tratava-se, pois, de garantir influência sobre metade do território, ou arriscar perder tudo.

 

Em agosto de 1948, na Coreia do Sul, foi proclamada a República da Coreia, com governo capitalista, capital sediada na Cidade de Seul, liderada pelo Presidente Syngman Rhee, um coreano radicado nos EUA, com diplomas de universidades norte-americanas. Seu governo seguiu à risca a cartilha anticomunista dos EUA e foi marcado pelo extremo autoritarismo, crescente instabilidade política e oposição pública.

 

Já em setembro de 1948, na Coreia do Norte, foi proclamada a República Popular Democrática da Coreia, com governo comunista, capital sediada na Cidade de Pyongyang, liderado pelo Primeiro-Ministro Kim Il-sung, um ex-combatente coreano que enfrentou a colonização japonesa, nos anos 1930 a 1940, avô do atual líder norte-coreano Kim Jong-um. O governo de Kim Il-sung, que deu origem a Dinastia Kim, foi marcado por sua natureza totalitarista, pelo culto à personalidade, o controle rígido sobre a população e a intensa propaganda estatal.

 

Em 29 de agosto de 1949, apenas quatro anos depois do primeiro ataque nuclear em combate da história (sobre a Cidade de Hiroshima), os soviéticos detonaram seu primeiro explosivo nuclear, na região do Polígono, no Cazaquistão, cujo dispositivo de implosão, chamado RDS-1, era quase uma réplica da bomba de plutônio norte-americana lançada sobre Nagasaki.

 

A bomba nuclear soviética foi uma verdadeira façanha de engenharia, conquistada em função dos recursos e conhecimentos obtidos com os espólios de guerra da extinta Alemanha Nazista. Mas também, uma notável proeza de espionagem, traduzida na capacidade de replicar, tão rapidamente, um projeto extremamente complexo como o da bomba de plutônio dos EUA. O fato é que esse acontecimento fez alçar a URSS ao status de potência nuclear, nivelando a balança de poder com os EUA. Tal fato tornou ainda mais improvável o embate direto entre as duas potências nucleares nos anos que se seguiram.

 

Já em 1950, após uma reunião secreta, a URSS e a China garantiram auxílio direto com armas e equipamentos à Coreia do Norte para invadir a Coreia do Sul, presumindo que os norte-americanos não interfeririam no conflito, assim como não interferiram na Guerra Civil chinesa, que resultou na vitória dos comunistas, em outubro de 1949.

 

Assim, em 25 de junho de 1950, os norte-coreanos, ora mais desenvolvidos e mais bem armados, lançaram um brutal ataque sobre as despreparadas forças sul-coreanas. As forças da Coreia do Norte contavam com 200 mil soldados, equipados com blindados T-34 soviéticos, mais de 200 peças de artilharia e quase 300 aviões e bombardeiros. Já os sul-coreanos possuíam uma força de apenas 65 mil soldados, basicamente composta por policiais, mal equipados e mal preparados.

 

Em menos de três meses as forças sul-coreanas foram encurraladas no chamado “Perímetro de Pusan”, uma área ao sudeste da Coreia do Sul, equivalente a menos de 10% da Península Coreana (conforme figura abaixo). Tudo levava a crer que os sul-coreanos seriam totalmente subjugados.


A contraofensiva veio, em setembro de 1950, com uma força combinada de 21 países da ONU, sendo 88% composta por norte-americanos, muito superior às forças da Coreia do Norte. Sob o comando do General Douglas MacArthur, um ataque de forças anfíbias, de quase 50 mil soldados, surpreendeu os norte-coreanos na sua retaguarda, pelo porto de Incheon. O sucesso da operação fez os soldados norte-coreanos recuarem para o norte, após perder mais de 100 mil soldados.

 

As forças da ONU avançaram para além do paralelo 38, invadindo o território da Coreia do Norte. Em resposta, o líder chinês Mao Tsé-Tung, após longas deliberações junto ao líder soviético Stalin, decidiu intervir diretamente no conflito, enviando, em 19 de outubro, 200 mil soldados chineses à Coreia do Norte. Esse contingente aumentou para o impressionante número de um milhão de soldados chineses nos meses seguintes.

 

Já em janeiro de 1951, o líder norte-coreano Kim Il-sung foi destituído pelos chineses do comando das tropas norte-coreanas, momento a partir do qual a China passou a comandar totalmente as forças comunistas no conflito. Eis que a ofensiva chinesa trouxe novo equilíbrio ao conflito, fazendo as tropas da ONU recuarem às proximidades do Paralelo 38.

 

Em resposta à ofensiva chinesa, o General MacArthur recomendou ao Presidente Truman que os EUA atacassem os chineses com armas nucleares, inclusive, levando o combate para dentro do território chinês. No entanto, o pleito foi negado por Truman, que temia eventual retaliação da URSS, agora dispondo das recém-criadas armas nucleares soviéticas.

 

Entre janeiro e março de 1951, instaurou-se uma guerra de atrito com baixas colossais de ambos os lados, sem grandes progressos de avanço no território dos adversários. Ainda em março de 1951, a capital do sul Seul foi retomada pelos sul-coreanos, totalizando a quarta vez que aquela cidade, já em ruínas, mudava de mãos durante a guerra.

 

Também em 1951, Stalin enviou centenas de aviões para os chineses, inclusive, com alguns pilotos soviéticos atuando diretamente no conflito. Isso implicava sérios riscos daquele conflito desencadear o mal supremo: o embate direto das duas únicas potências nucleares da época (EUA e URSS).

 

Em 11 de abril de 1951, o General MacArthur foi destituído do comando militar na Coreia pelo Presidente Truman. A decisão foi baseada, principalmente, na determinação incontida do General em estender a guerra para o interior da China, além de criticar, publicamente, a hesitação do presidente em usar armas nucleares contra os chineses.

 

O Presidente Truman havia percebido que era o momento de desescalar o conflito, enquanto era possível manter a Coreia do Sul sob a zona de influência norte-americana e antes de extrapolar o limite de tolerância dos soviéticos para adentrar oficialmente ao conflito, o que significaria o prelúdio da terceira guerra mundial.

 

A Guerra das Coreias se arrastou por três anos (1950 a 1953) até que, em 27 de julho de 1953, um armistício foi assinado. Foi criada uma zona desmilitarizada, com cerca de 200 quilômetros de comprimento e mais de 4 quilômetros de largura, que corta a península de costa a costa. A paz definitiva entre o norte e o sul nunca foi assinada. Isso significa dizer que, oficialmente, o estado de guerra ainda existe.

 

De acordo com os registros históricos, aproximadamente 2 a 3 milhões de pessoas perderam a vida durante o conflito, sendo a maioria dessas vítimas composta por civis coreanos. A matança se encerrou por décadas com o armistício, mas a relação entre os países ainda é extremamente preocupante, como se verifica a seguir.

 

6) SITUAÇÃO ATUAL DAS COREIAS

 

Embora a Coreia do Norte, nos primórdios de sua fundação, fosse mais desenvolvida e industrializada do que a Coreia do Sul, essa realidade se alterou dramaticamente nos últimos 76 anos.

 

Enquanto a Coreia do Norte possui uma população de cerca de 25.887.000 habitantes, a Coreia do Sul tem 51.305.000 habitantes (quase o dobro).

 

O PIB da Coreia do Norte, em 2023, foi de aproximadamente US$ 29,5 bilhões, enquanto o PIB da Coreia do Sul, no mesmo período, foi de cerca de US$ 429,2 bilhões (quase 14,6 vezes o PIB dos norte-coreanos).

 

Enquanto a Coreia do Norte é um dos países mais fechados do mundo, a Coreia do Sul, em 2022, ocupou o sexto lugar em exportação de bens no mundo, também figurando como o oitavo maior importador mundial. O comércio representa, hoje, cerca de 97% do PIB da Coreia do Sul.

 

No que toca às forças armadas, a Coreia do Norte conta com cerca de 1.280.000 soldados na ativa (dados de 2019) e aproximadamente 600.000 reservistas (total de cerca de 1.880.000). Já as forças armadas da Coreia do Sul contam com cerca de 653.000 soldados em serviço ativo (dados de 2010) e 3.200.000 na reserva (total de cerca de 3.853.000, mais que o dobro).

 

No geral, as forças armadas norte-coreanas conseguem equilibrar a balança com os sul-coreanos em termos de números absolutos de equipamentos, com destaque para seu acervo gigantesco de artilharia e de seu moderno arsenal de mísseis, desenvolvidos no âmbito da aliança militar pactuada entre Coreia do Norte e Rússia – que é um dos maiores expoentes tecnológicos do ramo.

 

Certamente, o maior trunfo militar da Coreia do Norte consiste no fato de ser ela uma potência nuclear desde 2006. Em contrapartida, como a Coreia do Sul é signatária do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), os sul-coreanos não desenvolveram armas nucleares até o momento.

 

Os sul-coreanos levam vantagem no quesito tecnologia, sendo sua força aérea e naval mais modernas, com destaque para o recebimento de equipamentos de última geração norte-americanos, graças à aliança militar pactuada entre a Coreia do Sul e os EUA.

 

Atualmente, ambas as nações têm protagonizado hostilidades. Os sul-coreanos têm enviado balões em direção à Coreia do Norte, contendo souvenirs típicos de sua cultura mundialmente consagrada, visando desestabilizar politicamente o governo opressor do norte com a perda do apoio popular. Os norte-coreanos, por sua vez, enviam balões na direção do sul, contendo esterco e lixo, além de, vez por outra, realizar disparos de artilharia em uma região de fronteira marítima com a Coreia do Sul.

 

As tensões entre as nações têm escalado em ritmo acelerado nos últimos meses, notadamente, após o pronunciamento impactante do líder norte-coreano Kim Jong-um, em 9 de setembro de 2024, durante um evento comemorativo do aniversário de fundação da Coreia do Norte. Ele afirmou que está implementando uma política de construção de força nuclear, visando o aumento exponencial no número de armas nucleares. Enfatizou também a necessidade de manter uma presença militar forte para enfrentar as “ameaças” impostas pelos EUA e seus aliados.

 

Trata-se, portanto, de uma afirmação muito significativa, uma vez que a Coreia do Norte, provavelmente, já dispõe de um arsenal com cerca de 20 a 115 ogivas nucleares (o 9º maior do mundo). Considerando o último teste nuclear norte-coreano, em 2017, calcula-se que a capacidade das bombas norte-coreanas gira em torno de 100 a 370 quilotons de TNT. A título de esclarecimento, vale ressaltar que um explosivo com capacidade de 100 quilotons de TNT é aproximadamente seis vezes mais poderoso do que a bomba nuclear lançada sobre Hiroshima em 1945.

 

Especialistas afirmam que o acervo nuclear de Kim Jong-um já é diversificado. Havendo bombas com tecnologia de material físsil à base de urânio e de plutônio. Além disso, embora não haja confirmação oficial, há indícios de que os norte-coreanos estejam envidando esforços no sentido de desenvolver também bombas termonucleares.

 

As bombas termonucleares, também chamadas de bombas de hidrogênio, são muito mais poderosas do que as bombas atômicas convencionais, pois combinam a tecnologia da fissão nuclear (tais como as bombas de urânio e de plutônio) com a fusão nuclear do hidrogênio. É uma tecnologia extremamente mais complexa. A título de ilustração, a bomba de hidrogênio “Ivy Mike”, testada pelos EUA em 1952, é cerca de 3 mil vezes mais potente que a bomba “Little Boy”, lançada sobre Hiroshima, em 1945. Esses são dados, verdadeiramente, sombrios!

 

Em resposta à retórica nuclear de Kim Jong-um, já há discussões na Coreia do Sul no sentido de repensar sua participação como signatário do TNP, bem como considerar a hipótese de basear armas nucleares norte-americanas em seu território, para contrapor o arsenal norte-coreano.

 

Diante disso, o prognóstico das relações entre as coreias não parece ser bom no curto prazo. A tendência é que vejamos maior escalada das tensões nos próximos dias, principalmente, desencadeada pela retórica agressiva do líder norte-coreano.

 

No entanto, a eventual vitória de Donald Trump na eleição de novembro, na disputa pela Casa Branca, pode mudar, radicalmente, a política norte-americana de enfrentamento do bloco oriental, liderado por China, Rússia e Coreia do Norte, possivelmente, amenizando as hostilidades entre as coreias, dada a tendência histórica tipicamente menos beligerante dos governos republicanos em Washington.

 

Nesse compasso, Trump tem afirmado que os EUA precisam repensar seus gastos com o apoio militar aos seus parceiros estratégicos, principalmente na Guerra da Ucrânia e na ilha de Taiwan. O que nos faz supor que o candidato, se eleito, adote postura similar no que concerne à Coreia do Sul, fazendo assim, quem sabe, os norte-coreanos se sentirem menos ameaçados e, portanto, vindo a se comportar de forma menos hostil.


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