CRISE CHINA x TAIWAN EM 5 PONTOS

 



(6 min de leitura)


1) HISTÓRICO MULTIÉTNICO DA ILHA DE TAIWAN

 

A ilha de Taiwan foi descoberta e batizada como “Ilha Formosa” pelos portugueses em 1544, sendo utilizada com entreposto comercial até meados de 1600.

 

Já em 1624, a Companhia Holandesa das Índias Orientais estabeleceu base na ilha, permanecendo no seu controle até ser expulsa, em 1662, pelo exército do líder chinês Zheng Cheng-gong, do final da Dinastia Ming.

 

Em 1683, o Império Chinês (continental) Manchu, da Dinastia Qing, invadiu Taiwan, consolidando o controle sobre a ilha. Essa condição perdurou até 1895, com advento da Primeira Guerra Sino-Japonesa, quando a ilha de Taiwan foi cedida ao Japão pelo Tratado de Shimonoseki, após derrota do Império Chinês Manchu.

 

Já em 1912, revolucionários chineses derrubaram o governo do Império Manchu e estabeleceram a República da China no continente.

 

Enquanto isso, o Japão governou a ilha de Taiwan por 50 anos, até o final da 2ª Guerra Mundial, em 1945, ocasião na qual os territórios de Taiwan, Manchúria e Pescadores foram devolvidos pelos japoneses ao controle chinês, nos termos da chamada “Declaração do Cairo”, pronunciada conjuntamente pelo Presidente dos Estados Unidos da América (EUA), Franklin Roosevelt, pelo Primeiro-Ministro britânico, Winston Churchill, e pelo líder da então República da China, General Chiang Kai-Shek.

 

2) REVOLUÇÃO COMUNISTA E TAIWAN CONSIDERADA A PRÓPRIA CHINA

 

Com o fim da guerra civil chinesa, as forças comunistas vitoriosas, lideradas por Mao Tsé-Tung, proclamaram, em 1º de outubro de 1949, a fundação da República Popular da China no continente.

 

Já as forças nacionalistas derrotadas, sob o comando do General Chiang Kai-Shek, refugiaram-se em Taiwan, estabelecendo na ilha a sede do governo da República da China.

 

Taiwan é, até hoje, oficialmente intitulada “República da China” e foi reconhecida, à época, como a própria China, inclusive, como membro fundador das Nações Unidas (NU) e um dos cinco membros permanentes do seu Conselho de Segurança, até ser substituída, em 1971, pela República Popular da China (continental).

 

Com efeito, taiwaneses se consideram ainda, por direito, os legítimos representantes da nação chinesa, sob a bandeira da República da China. Isto é, para Taiwan, eles são a própria China!

 

Já, para a República Popular da China (China continental), Taiwan é uma “província rebelde”, sendo a reunificação dos territórios em uma só China um “objetivo inevitável”, nas palavras do líder chinês Xi Jinping, que tomará “todas as medidas necessárias” para garantir isso, sem excluir a possibilidade de ação militar.

 

3) POLÍTICA NORTE-AMERICANA DE “AMBIGUIDADE ESTRATÉGICA”

 

A Política de “Ambiguidade Estratégica” dos EUA em relação à Taiwan consiste em uma abordagem, deliberadamente vaga, acerca do reconhecimento norte-americano quanto a independência dos taiwaneses e, por conseguinte, da incerteza se, de fato, os EUA defenderiam a ilha de eventual ataque chinês.

 

Em 1955 foi celebrado o Tratado de Defesa Mútua entre EUA e Taiwan, o qual serviu, essencialmente, para impedir a República Popular da China de retomar Taiwan durante os anos de 1955 a 1979.

 

No entanto, como se deterioraram as relações entre a República Popular da China e a União Soviética, durante a Guerra Fria nos anos 1970, a prioridade de Washington passou a ser a de estreitar laços com os chineses, com o propósito lógico de conter a influência soviética na região. Para tanto, os EUA reconheceram oficialmente a República Popular da China em 1979. Além disso, apenas um ano depois, em 1980, o Presidente dos EUA, Jimmy Carter, anulou unilateralmente o Tratado de Defesa Mútua entre EUA e Taiwan.

 

No lugar do extinto tratado, foi aprovada, no mesmo ano (1979), a Lei de Relações com Taiwan (Taiwan Relations Act [TRA]), em vigor até hoje. Segundo o TRA, os EUA se comprometem a fornecer os meios para que Taiwan possa se defender de um eventual ataque da China, contudo não obriga as forças armadas norte-americanas a atuar diretamente no conflito para defender a ilha. Ainda assim, recentemente, o Presidente dos EUA, Joe Biden, fez um pronunciamento público no sentido de que os EUA defenderão sim Taiwan em caso de invasão chinesa à ilha.

 

Essa estratégia ambígua foi crucial para que os EUA mantivessem boas relações com ambas as nações por décadas. Todavia, a abordagem parece não mais resultar no mesmo efeito, considerando que a “reunificação em uma só China” tem sido tratada como um projeto pessoal do Presidente chinês, Xi Jinping. Mais uma de muitas variáveis que atuam no sentido de colocar Washington e Pequim em rota de colisão a médio e longo prazo.


4) ESTRATÉGIA DE TAIWAN PARA SE DEFENDER DA CHINA

 

Taiwan não tem condições materiais de se defender da China em um combate convencional. A China, atualmente, possui a maior força militar do mundo em números absolutos, com mais de 2 milhões de soldados em atividade, enquanto Taiwan possui cerca de 169 mil. Não bastasse isso, a Marinha chinesa já ultrapassou a dos EUA em número de embarcações, embora a norte-americana ostente tecnologia superior.

 

A China vem realizando exercícios típicos de bloqueio naval no entorno de Taiwan (conforme imagem abaixo), além de violar o espaço aéreo da ilha com frequência, para estudar o tempo e a forma de reposta das forças taiwanesas. Trata-se, claramente, de atos preparatórios operacionais, visando o refinamento dos planos de uma futura invasão chinesa.

 


Sendo assim, no lugar de se preparar para uma possível batalha convencional, Taiwan adotou uma abordagem sofisticada visando uma batalha assimétrica, a chamada “Estratégia do Porco-Espinho”. Essa tática tem por desiderato tornar extremamente custosa uma eventual invasão inimiga, possivelmente não compensando as vantagens obtidas com a anexação forçada do território taiwanês.

 

Dessa forma, Taiwan tem orientado seus modestos recursos para compra de estoques colossais de equipamentos menos sofisticados e caros, mas que são capazes de infligir baixas assombrosas às forças de Pequim, no caso de um desembarque hostil chinês nas praias da ilha. Exemplo disso são armas e munições antiaéreas, antitanque e antinavio, incluindo sistemas de defesa costeira, mísseis de cruzeiro e drones.

 

O que Taiwan precisa, de fato, é garantir que a ilha não seja tomada pelas tropas chinesas antes que forças aliadas possam prestar auxílio direto. A proximidade de seu território com o continente é, decerto, um fator complicador. No entanto, os EUA já têm aumentado sua presença na região para diminuir o tempo de resposta a um eventual ataque.

 

Outra vertente da estratégia dissuasória taiwanesa consiste no ousado plano de bombardear a Barragem das Três Gargantas na China, onde fica localizada a maior usina hidroelétrica do planeta, alimentada pelo Rio Yangtze, que é o terceiro maior rio do mundo (menor somente que o Rio Nilo e o Rio Amazonas). Destruir essa barragem resultaria na inundação das cidades de Whan, Nanjing e Xangai. Taiwan possui mísseis de longo alcance capazes de atingir seu alvo em território chinês, havendo sérias dúvidas se as defesas antimísseis chinesas poderiam impedir um ataque massivo de saturação àquela região.

 

5) O “ESCUDO DE SILÍCIO” TAIWANÊS

 

Finalmente, cumpre salientar o importante papel desempenhado pelo chamado “Escudo de Silício” taiwanês, como um dos principais aspectos de sua estratégia dissuasória. Esse “escudo” diz respeito à proteção que Taiwan desfruta por ser considerada o maior expoente tecnológico do mundo no mercado de microchips – compostos por materiais semicondutores, como silício, que deu nome ao “escudo”.

 

Mais de 90% da produção mundial de microchips de última geração é abastecida pela empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), sediada na ilha de Taiwan. É a maior fornecedora de microchips para as principais empresas de tecnologia do mundo, tais como Apple, AMD, NVIDIA e Qualcomm.

 

Estima-se que a interrupção da produção de semicondutores da TSMC causaria prejuízo aos mercados na ordem de 2,5 trilhões de dólares por ano. Certamente, é um preço que Pequim não está disposta a pagar. Pelo menos, não até que seus produtores domésticos logrem a capacidade de suprir sua crescente demanda, ora embalada pelos investimentos bilionários no desenvolvimento de tecnologias de inteligência artificial.

 

Eis um ponto de convergência de interesses momentâneo entre os EUA e a China, tendente a adiar o provável conflito direto entre as maiores potências do mundo. Afinal, ambos precisam atingir a autossuficiência em abastecimento da sua própria cadeia de insumos, antes de arriscar comprometer a produção taiwanesa em razão dessas disputas territoriais e de influência na região.


Comentários

  1. Gostaria de parabenizar pelo artigo de excelente qualidade. Sou um mero entusiasta de Geopolítica e sempre acompanho as notícias, porém sempre senti que havia uma lacuna na abordagem de alguns sites. Seu blog, diferentemente de tudo o que acompanho por aí, consegue abordar de forma mais abrangente e de uma maneira elegante, sem ideologias. Parabéns, Eduardo!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado, meu caro! Fico muito satisfeito de receber suas impressões acerca de meus artigos. Seja sempre muito bem-vindo!

      Excluir

Postar um comentário