CREPÚSCULO DO ARBÍTRIO HUMANO: A ASCENSÃO DA IA E A NOVA ERA DA GUERRA ASSIMÉTRICA
Introdução: A Revolução Silenciosa dos Algoritmos
A historiografia militar é
pontuada por rupturas tecnológicas — da pólvora ao átomo. Todavia, a
transformação exponencial em curso nas planícies da Ucrânia, nas selvas da
Venezuela e nos desertos do Irã, neste 2026, não é uma mera otimização
doutrinária ou cinética; é uma mudança ontológica. A inteligência artificial
(IA) deixou de ser uma ferramenta de suporte para se tornar a arquiteta da
decisão. O que testemunhamos é a transição da "guerra assistida por
computador" para a "guerra conduzida por algoritmos", na qual a
velocidade do processamento de dados ultrapassou a capacidade cognitiva humana
de supervisão.
A Operação Maduro e o "Cérebro" de IA no Irã
A captura de Nicolás Maduro na
Venezuela e a ofensiva contra o Irã serviram como o test bed definitivo
para essa nova era. Na operação de extração de Maduro, o sistema Maven
Smart System (Palantir) foi o pilar central. Integrado ao modelo de
linguagem Claude (Anthropic), o sistema processou feeds de
vídeo de drones de alta altitude, inteligência de sinais (SIGINT) e dados de
reconhecimento terrestre para mapear não apenas a localização de Maduro, mas
para analisar padrões comportamentais, rotas de fuga prováveis e até a
disposição de sua segurança imediata. A IA elaborou o plano de inserção das
forças especiais, cronometrando cada etapa para minimizar danos colaterais e
maximizar a surpresa.
Já no conflito contra o Irã, a
escala foi nada menos do que industrial. O Maven Smart System atuou
como um coordenador multidomínio, processando dados de satélites e radares para
identificar mais de 1.000 alvos nas primeiras 24 horas. O
sistema não apenas "viu" os alvos, mas utilizou algoritmos
generativos para montar "pacotes de ataque": escolhendo qual drone,
míssil ou aeronave seria mais eficiente contra cada bunker ou bateria de mísseis
iraniana, otimizando o consumo de munição e a logística de reabastecimento em
tempo real. Um sistema tão impressionante quanto imperfeito, vale lembrar, que
resultou no ataque aéreo contra uma escola, levando a óbito mais de uma centena
de crianças segundo o Governo iraniano.
A Erosão da Supremacia: Guerra Assimétrica e o Fator Drone
O conceito de guerra assimétrica
foi redefinido. Se antes as superpotências garantiam o domínio através de
porta-aviões e caças stealth (furtivos) de 5ª geração, hoje
essa hegemonia é relativizada, surpreendentemente, por tecnologias de baixo
custo. Na Ucrânia, estatísticas indicam que cerca de 80% das mortes em
combate decorrem de ataques de drones. O sucesso na contraofensiva
iraniana contra forças dos EUA e Israel exemplifica essa guinada. O
protagonista é o Shahed-136 (imagem abaixo), um drone iraniano suicida de US$ 20
mil que contrasta com sofisticados mísseis interceptores do Sistema Patriot
americano, por aproximadamente US$ 4,2 milhões a unidade. Tamanha é sua
eficiência que forçou as potências a mimetizarem o modelo iraniano: a Rússia
desenvolveu o Geran-2 (com navegação inercial aprimorada e
revestimentos absorventes de radar) e os EUA introduziram o LUCAS,
focado em enxames coordenados por IA.
A estratégia iraniana elevou a
assimetria a um novo patamar, combinando mísseis balísticos de precisão com
enxames de drones para saturar defesas e destruir ativos militares dos EUA em
países do Golfo Pérsico. Além disso, o Irã consolidou o fechamento do Estreito
de Ormuz através de uma tríade letal: enxames de drones suicidas,
lanchas rápidas armadas com mísseis e foguetes, e minas subaquáticas
inteligentes. Até o momento, essa estratégia foi tão bem-sucedida que nem mesmo
o poderio naval dos EUA foi capaz de desarmar o bloqueio, transformando o
estreito na mais poderosa arma geopolítica de Teerã, capaz de estrangular o
fluxo energético global.
IA Local e a Imunidade ao Jamming
A resposta imediata ao domínio
dos drones foi a guerra eletrônica. Sistemas como o russo Krasukha-4 visam
cortar o sinal de rádio. Em resposta sugiram os drones com cabos de fibra
ótica, uma solução eficaz simples que, no entanto, limita o alcance do próprio
drone. Para resolver esse impasse tecnológico, mantendo o controle do
dispositivo sem, contudo, comprometer o seu alcance, a IA migrou para a
"borda" (edge computing). Drones mais modernos passaram a
utilizar a denominada "IA Local", dispensando o controle
remoto. Através de visão computacional, o drone identifica o alvo e executa o
ataque de forma autônoma, tornando-se imune a sistemas Jammer. Se o
vínculo com o humano é cortado, a IA assume o comando letal.
Drones Anti-Drone e Micro-ondas: A Nova Defesa Antiaérea
Diante da mais moderna ameaça da
saturação por enxames, a Ucrânia desenvolveu uma expertise singular: a
fabricação de drones de baixo custo especializados em caçar outros drones (imagem abaixo). Esta
doutrina substitui baterias de mísseis caríssimas por interceptores descartáveis,
viabilizando uma defesa economicamente sustentável contra os ataques massivos.
A Ditadura da Velocidade e a Opacidade Algorítmica
No planejamento, o Maven e o
Claude processam volumes colossais de dados que um Estado-Maior humano levaria
dias para organizar. A IA, contudo, gera planos complexos em segundos,
selecionando alvos e sugerindo o armamento ideal. Aqui reside o chamado “paradoxo
da auditoria”: a IA é usada pela sua assertividade sobre-humana. Se um
comandante parar para verificar cada variável, ele perde a vantagem da
celeridade decisória. Na prática, o humano tornou-se um "carimbador"
de decisões pré-formatadas.
Essa dependência é agravada pela
conhecida opacidade algorítmica. Com arquiteturas de redes neurais
que superam 1 trilhão de parâmetros em suas camadas ocultas, o
processo de "raciocínio" da máquina é hodiernamente ininteligível.
Trata-se de uma autêntica "caixa preta": sabemos o resultado, mas não
o caminho lógico pelo qual foi conduzida a cadeia de raciocínio, o que torna a
decisão militar um mero ato de fé na tecnologia.
O Risco Distópico: Do Projeto Manhattan à Superinteligência
O perigo imediato não é uma IA
consciente que "odeia" a humanidade, tal qual se viu em obras de
ficção como “O Exterminador do Futuro” ou “Matrix”, mas a eficácia técnica
indispensável de uma IA plenamente amoral. O CEO da Anthropic, Dario Amodei,
alerta para a emergência de sistemas que, por exemplo, detêm o conhecimento
equivalente a doutorados em física, química, engenharia e biologia simultaneamente. Uma
nação que alcance a Superinteligência Artificial primeiro terá, com efeito, um
verdadeiro "exército de gênios" trabalhando em pesquisa e
desenvolvimento bélico 24 horas por dia - isso sem as limitações típicas de um
ser humano, relativas à fadiga, ao sono, à fome, ou, ainda, aos cediços
imperativos ético-morais.
A última vez que a humanidade
concentrou tal densidade de intelecto em um propósito comum foi justamente no
âmbito do Projeto Manhattan, cujo resultado transformou uma simples
fissão nuclear na mais poderosa arma de destruição em massa. Hoje, o mais novo
"Manhattan Digital" está distribuído em servidores espalhados pelo
globo, mas o objetivo permanece o mesmo: a subjugação total do adversário
através da tecnologia. Se a IA já decide quem vive e quem morre no campo de
batalha sob o pretexto da eficiência, o controle humano sobre a guerra já pode
ter se tornado uma ilusão burocrática. O futuro das nações agora depende de
padrões ocultos que nenhum general é capaz de explicar – ou questionar, o que é
ainda pior. Isso, com toda certeza, não há de acabar bem!
Referências Bibliográficas
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Military Brain Built on Claude. LinkedIn, 09 mar. 2026.
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em: https://www.linkedin.com/pulse/inside-maven-palantirs-military-brain-built-claude-anthony-maio-bd6ee.
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27 mar. 2026. Disponível em: https://www.chathamhouse.org/2026/03/iran-war-highlights-creeping-use-ai-warfare.
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Curitiba: Gazeta do Povo, 14 fev. 2026. Disponível
em: https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/eua-utilizaram-modelo-de-ia-em-operacao-que-capturou-maduro-na-venezuela/.
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Global Times, 03 mar. 2026. Disponível em: https://www.globaltimes.cn/page/202603/1356212.shtml.
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Acesso em: 05 abr. 2026.
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York: WSJ, 03 abr. 2026. Disponível
em: https://www.wsj.com/world/middle-east/iran-uses-asymmetric-warfare-to-inflict-pain-from-a-weakened-position-c054df77. Acesso
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