POR QUE O MERCADO FINANCEIRO COMEMORA O AUMENTO DO DESEMPREGO NOS ESTADOS UNIDOS?


(4 min de leitura - Artigo publicado em 5 de maio de 2024 no Linkedin).


Esta semana o Departamento do Trabalho dos Estados Unidos (US Bureau of Labor Statistics) divulgou o payroll, uma pesquisa mensal do mercado de trabalho estadunidense. Em seu relatório, consta a criação de 175 mil vagas de trabalho em abril, abaixo da expectativa consensual de 243 mil. Elevando a taxa de desemprego de 3,8% para 3,9%.

 

A notícia impactou positivamente o mercado financeiro, sendo observada reação de alta das bolsas ao redor do mundo. Os preços dos ativos subiram, em razão do comportamento otimista de muitos investidores traduzido em grande pressão compradora. Mas qual seria o motivo para reagirem otimistas com a alta do desemprego nos Estados Unidos da América (EUA)? Para melhor compreender esse cenário, precisamos, primeiramente, analisar a crise pós-pandêmica atravessada pelos norte-americanos.

 

A maior crise sanitária do século impactou a economia de todas as nações do mundo. E para a maior superpotência econômica não foi diferente. A inflação nos EUA atingiu seu ápice em julho de 2022, quando o CPI (Consumer Price Index) registrou alarmantes 9,1% no acumulado de 12 meses – algo que só havia ocorrido, pela última vez, há mais de 40 anos (em novembro de 1981). Isto é, a maioria dos norte-americanos sequer conhecia este cenário de inflação nas alturas.

 

Pois bem, mas o que é inflação? É o “aumento geral nos preços de bens e serviços em uma economia”. Ou seja, quanto mais os preços sobem menor é o poder de compra da moeda – menor é o seu valor. Isso ocorre, dentre outros fatores, em razão da desproporção entre oferta e demanda. Muitas pessoas e empresas dispostas a gastar muito por produtos e serviços sinalizam que o mercado está aquecido, apto a comportar preços mais altos, sem que isso implique diminuição das vendas. Por conseguinte, os preços tendem a subir, dada a estratégia das empresas e pessoas, na ponta vendedora, visando aumentar seu faturamento.

 

Atualmente, a inflação nos EUA está na ordem de, aproximadamente, 3,4% ao ano. Nada tão absurdo se comparado aos recentes 9,1%, todavia, ainda assim, é um nível muito elevado em se tratando da economia mais pujante e resiliente do planeta. E o que está sendo feito para controlar isso? O Federal Reserve (banco central dos EUA) elevou a taxa básica de juros norte-americana (Fed Funds Rate) à faixa de 5,25% a 5,50% – a maior taxa nos últimos 20 anos.

 

A Fed Funds Rate é a principal ferramenta que o Federal Reserve tem a sua disposição para combater a inflação. Isso porque a taxa básica alta implica, outrossim, a prática de juros elevados por todas as instituições financeiras do mercado. Isto é, todo negócio pactuado a prazo passa cobrar juros mais altos. Essa prática tende a diminuir a circulação de dinheiro na economia, já que menos pessoas e empresas estariam dispostas a contratar empréstimos ou fazer financiamentos onerados com juros mais altos. Com isso, passam dispor de menos capital para investir em seu negócio – passam a comprar menos. Se há menos moeda circulando, há também menos pessoas e empresas na ponta compradora de produtos e serviços dispostos a pagar preços elevados. Naturalmente, nesse cenário, empresas e pessoas na ponta vendedora tendem a baixar seus preços, para manter as vendas visando estabilizar seu faturamento – finalmente, observamos, em razão disso, a queda da inflação.

 

Mas o que a alta de desemprego tem a ver com isso afinal? O desemprego é ruim para a economia, não resta dúvida. Contudo, seu extremo oposto também o é. Ou seja, o chamado “pleno emprego”, situação utópica na qual não haveria desempregados, tende a aquecer demasiadamente a economia, havendo muitas pessoas dispostas a pagar preços altos por produtos e serviços na ponta compradora. O que, inarredavelmente, implicaria aumento de preços pelo mecanismo alhures explicitado.

 

Evidente que o mercado do Tio Sam não esteve às vias de atingir o “pleno emprego”. No entanto, o discreto aumento de desemprego sinaliza o aparente desaquecimento da economia – o qual pode levar à queda dos preços, desinflacionando o mercado. Essa notícia pavimenta um cenário possível para a queda da taxa básica de juros nos EUA em horizonte próximo.

 

E os investidores ficam animados com isso por quê? Trata-se de uma questão de apetite a risco. Veja, os títulos da dívida pública dos EUA (tesouro norte-americano) são os ativos mais seguros do mundo! Suas taxas acompanham a taxa básica de juros. Quanto maior a Fed Funds Rate maior é o retorno com investimentos no tesouro norte-americano. E a maioria de investidores de todo o mundo prefere investir em títulos do tesouro dos EUA com as taxas em alta, mesmo auferindo retornos pouco menores do que quando expostos a ativos de risco na renda variável (ações por exemplo).


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